Ulrich Leicht

DO MARXISMO À CRÍTICA DO VALOR

Sobre o ensaio de Anselm Jappe de

"... transmitir ao leitor a paixão que o autor sente pelo tema aparentemente tão abstracto do valor"

Uma vista de olhos ao livro de Jappe "AS AVENTURAS DA MERCADORIA. Para uma nova crítica do valor"

Saiu em Abril de 2005, em tradução alemã na editora UNRAST, o livro de Anselm Jappe, um autor de há muitos anos da antiga Krisis, publicado dois anos antes em edição francesa na editora parisiense Denoel "Les aventures de la marchandise. Pour une nouvelle critique de la valeur" [Tradução portuguesa: "As aventuras da mercadoria. Para uma nova crítica do valor", Editora Antígona, Lisboa 2006 - NT]. Ainda que "As aventuras da mercadoria. Para uma nova crítica do valor" tenha sido escrito primeiramente para um público francês, sendo o subtítulo algo irritante devido evidentemente a esta circunstância, a meu ver são de saudar a edição alemã e o desejo do autor. No capítulo introdutório "Será o mundo uma mercadoria?" escreve Anselm Jappe:

"O objectivo deste livro era expor ao público francês para entendimento geral os fundamentos da crítica do valor e apresentar-lhe alguns autores dele desconhecidos. Estas temáticas e estes autores são seguramente conhecidos do público de língua alemã. Mas também no espaço de língua alemã faltava uma introdução resumida dos fundamentos da crítica do valor. O que justifica uma edição alemã. A maioria dos autores criticados no último capítulo são franceses, mas uma vez que as suas teorias ou também são conhecidas na Alemanha, ou aí encontram equivalentes, pareceu adequado publicar também este capítulo, tal como o resto do livro, numa edição idêntica à versão francesa". (p. 19 – paginação referente à edição alemã) [entre parêntesis rectos a paginação da edição portuguesa - NT]

E de facto o livro contém o que aqui é prometido e referido. A introdução e exposição de Anselm Jappe dos princípios de crítica social da "crítica do valor fundamental" não existia até agora nesta forma e, como é costume dele, é bem conseguida quanto a facilidade de leitura, argumentação e documentação – não (ainda) na crítica do valor-dissociação, o que é perfeitamente legítimo para um trabalho que no seu começo vai até aos anos 90. E com este livro também ao público alemão se pode dar a conhecer e apresentar algo de novo, ainda que a crítica do valor-dissociação entretanto esteja mais adiantada. Jappe esboça em linhas gerais a tradição das poucas abordagens da crítica do valor após Marx e mostra em que bases e trabalhos anteriores se apoia a sua exposição:

"O presente livro não pretende apresentar descobertas inéditas. A crítica do valor tem os seus antecedentes nos anos vinte com dois trabalhos: História e consciência de classe, de György Lukács, e os Estudos sobre a teoria do valor, de Isaak Rubin. Continua depois por entre as linhas dos escritos de Theodor W. Adorno, para encontrar o seu verdadeiro nascimento por volta de 1968, quando em diferentes países (Alemanha, Itália, USA) autores como Hans-Jürgen Krahl, Hans Georg Backhaus, Lucio Colletti, Roman Rosdolsky, Guy Debord e Fredy Perlman trabalham em torno do mesmo assunto. Desenvolve-se posteriormente, a partir da segunda metade dos anos oitenta, com autores como Robert Kurz, na Alemanha, Moishe Postone, nos Estados Unidos, e Jean-Marie Vincent, em França, os quais, sem contacto entre si, chegaram, por vezes literalmente, às mesmas conclusões". (p. 17/18) [p. 18]

Anselm Jappe, portanto, não desenvolve mesmo novas teses. Ele procura apresentar pela primeira vez em conjunto os basics da crítica do valor, que se encontram na crítica da economia política de Marx e em diversas pesquisas não facilmente acessíveis, relacionadas com ela e que lhe dão continuação, dos autores acima mencionados. E esta é uma difícil tarefa plena de mérito que Jappe consequentemente justifica:

"Cada autor que se ocupou da crítica do valor examinou um aspecto particular da questão, e quase sempre dirigindo-se a um público que se pressupunha conhecer já a teoria do valor de Marx. Alguns deles dedicaram a vida a dissecar algumas páginas de Marx em todo o pormenor; outros analisaram as actuais convulsões económicas ou a história do século XX, utilizando a crítica do valor como uma espécie de ‘pressuposto tácito’ que explicaram em poucas de frases. Não existe nenhum texto que procure apresentar a crítica do valor na sua integralidade, começando pela análise mais simples, a da relação entre duas mercadorias, para progredir depois gradualmente do abstracto ao concreto e chegar à actualidade e às temáticas históricas, literárias ou antropológicas. A teoria do fetichismo apresentada neste livro deve muito à revista Krisis e a alguns dos seus colaboradores. O autor participou pessoalmente no desenvolvimento dessa teoria, e nas páginas que aqui se oferecem ao leitor ela encontra-se presente com maior frequência do que possa julgar-se com base apenas nas citações explícitas. Contudo, o presente livro não representa de modo algum uma condensação ‘oficial’ das posições do grupo Krisis, que aliás entretanto se cindiu em dois grupos. Nenhum dos autores que constituíram o grupo Krisis é responsável pelo uso que aqui é feito das respectivas teses" (p. 18/19) [p. 18/19].

Anselm Jappe, nascido em Bonn e hoje vivendo entre a França e a Itália, frequentemente também no Brasil, escreveu em 1993 uma biografia de Guy Debord – o principal pensador da Internacional Situacionista – publicada primeiro em Itália, depois também em França e em tradução inglesa [Edição brasileira na Editora Vozes - NT]. Na Anderen Bibliothek saíu a antologia por ele publicada Schade um Italien! Zweihundert Jahre Selbstkritik [Mal empregada Itália! Duzentos anos de autocrítica] (1997). Além disso publicou muitos artigos em revistas de diversos países. Até Setembro de 2001 era correspondente em Itália da "Jungle World", cujo apoio à guerra de ordenamento mundial imperial levou à ruptura. Colaborou com a antiga "Krisis" entre 1993 e 2003. Aí sairam entre outros artigos sobre Guy Debord e os situacionistas A política do espectáculo – o espectáculo da política. Sobre a actualidade da teoria de Guy Debord (Krisis 20) e Terão os situacionistas sido a última vanguarda? no nº 21. Na Krisis 24 iniciou Anselm Jappe, com o muito discutido artigo Genes, valores, revoltas camponesas e a crítica da biotecnologia nele incluída, o debate sobre uma área temática candente e nova para a discussão da crítica do valor. Na Krisis 25 em As Novas Vestes do Proletariado. De "Empire" regressando à II Internacional analisa criticamente à lupa o livro "Empire" de Hardt/Negri, o novo best-seller no espectro da crítica da globalização, e decifra a sua argumentação como uma nova versão recauchutada do operaismo italiano dos anos setenta e "a última mascarada do marxismo tradicional" (p. 235). A sua última contribuição para a Krisis foram as "Notas sobre a crítica do iluminismo" de Robert Kurz com o comentário "Uma questão de ponto de vista" no nº 26 em 2003.

O facto de o novo livro de Anselm Jappe, que foi elaborado muito antes da cisão da antiga Krisis, ser agora anunciado pelo resto da Krisis na respectiva homepage e em publicações como "do nosso colaborador da Krisis de longa data" é seguramente uma apropriação do autor não autorizada nem aprovada. Facto é que Anselm Jappe se pronunciou em 2004 contra o procedimento dos "putschistas" e desde então também nunca mais entrou em publicações para o "projecto do resto da Krisis". De uma nota no seu livro (p. 61), em que é apresentado o antigo projecto Krisis ao leitor e também é mencionada a cisão, depreende-se que para Anselm Jappe a "EXIT!" e o "Resto da Krisis" são dois projectos novos e que o projecto da antiga Krisis, do qual ele foi efectivamente colaborador durante muitos anos, já não existe – portanto uma dita "colaboração de há muitos anos" agora invocada pelo resto da Krisis é obsoleta e completamente despropositada.

De qualquer modo também vem a propósito do nosso lado chamar a atenção para o livro de Anselm Jappe, apesar daquela pretendida apropriação exclusiva: não sobretudo porque são frequentemente citados e trabalhados textos de Robert Kurz – seguindo a lógica da respectiva temática –, dando-lhes assim consequentemente um grande relevo, mas sim porque Jappe conseguiu expor bem numa visão de conjunto as bases dos fundamentos originais da crítica do valor, tal como conseguiu também colocá-la em confronto e torná-la clara no debate crítico com as concepções hoje particularmente virulentas no movimento de crítica da globalização ou no novo movimento de "apropriação".

O livro de mais de 250 páginas, dividido, além da introdução "Será o mundo uma mercadoria?", em mais seis capítulos – "A mercadoria, essa desconhecida", "Crítica do trabalho", "A crise da sociedade da mercadoria", "História e metafísica da mercadoria", "O fetichismo e a antropologia", "Sobre alguns falsos amigos" – pode e deve ser lido em dois planos. O texto principal segue as grandes linhas da crítica da mercadoria e do fetichismo e elabora nesta tradição a crítica do valor "esotérica" de Marx, também a partir de escritos pouco tidos em conta, com a ajuda dos autores da crítica do valor acima mencionados e torna-se fecundo para a análise das relações mundiais actuais; desde os Grundrisse [Esboços], passando pelos Resultados do processo de produção imediato até ao Urtext [Texto primitivo] e também a pouco conhecida 1ª edição alemã, bem como a edição francesa de o primeiro volume de O capital revista por Marx. As notas no fim de cada capítulo aprofundam o texto com mais citações e referências de fontes, através da apresentação de autores e de explicações objectivas. Uma extensa bibliografia dos textos de Marx (tendo mesmo em consideração alguns importantes manuscritos e textos da nova edição MEGA2 de "O capital e os seus trabalhos preparatórios") e dos outros autores citados conclui livro, de apresentação exemplar.

Algumas amostras do livro poderão ser a melhor prova disto e estimular a vontade de contactos mais aprofundados. Assim, por exemplo, relativamente à teoria da crise de Marx:

"(...)A teoria da crise é uma das partes mais originais da obra de Marx, e ele mesmo criticava à economia política burguesa o facto de se tornar completamente ‘vulgar’ ao tratar do problema da crise (por ex., MEW 26.2/499-506). Na verdade, a sua teoria da crise é no fundamental fragmentária e não isenta de contradições. Mas pode dizer-se que toda a análise que Marx faz do capitalismo é essencialmente uma ‘teoria da crise’ orientada para o fim ‘apocalíptico’ com o qual previa coroar a sua crítica da economia política (Vejam-se os planos de Marx para a Contribuição em MEGA II.1, pag. 14). Marx analisou longamente, sobretudo no terceiro volume de O Capital, as crises cíclicas enquanto forma normal de funcionamento do capitalismo, em que a prosperidade nunca é estável. Mas desenvolveu também a teoria da ‘crise final’, que entendia ser inevitável por força do limite interno inultrapassável do capitalismo. Fé-lo sobretudo nos Grundrisse; mas até ao fim da vida Marx insistiu no facto de que a dinâmica do capitalismo levá-lo-á a uma crise que terminará na completa ruína (Por ex., no rascunho da carta a Vera Sassulitsch, MEW 19/132). Para Marx, a coincidência essencial entre capitalismo e estado de crise não é apenas resultante de incoerências quantitativas entre os diferentes factores da economia capitalista (incoerências que faziam as delícias da teoria do subconsumo, florescente na época keynesiana). A tendência do capitalismo para a crise é algo que está já contido na estrutura da mercadoria com a sua separação fundamental entre produção e consumo (5) [12], entre o particular e o geral, entre o conteúdo e a forma. Cada novo nível de análise mais não faz do que fazer aparecer cada vez mais este potencial de crise: ‘Permanece, pois, esta verdade: a forma mais abstracta da crise (e, em consequência, da possibilidade formal da crise) é a própria metamorfose da mercadoria, na qual, somente enquanto movimento desenvolvido, se encerra a contradição, incluída na unidade da mercadoria, entre valor de troca e valor de uso, e de seguida entre dinheiro e mercadoria. Mas o que transforma esta possibilidade de crise em crise não está contido nesta própria forma: o que ela contém é apenas o facto de estar aí presente a forma para uma crise. Na análise da economia burguesa é este o ponto importante. As crises do mercado mundial têm que ser entendidas como algo que sintetiza realmente e igualiza violentamente todas as contradições da economia burguesa. Os diversos momentos assim sintetizados nessas crises devem, pois, necessariamente surgir em cada esfera da economia burguesa e desenvolver-se aí, e à medida que mais penetramos nessa esfera é preciso, por um lado, desenvolver novas determinações do conflito e, por outro lado, demonstrar a recorrência e a persistência das suas formas abstractas nas suas formas mais concretas. Pode, pois, dizer-se: sob a sua primeira forma, a crise é a metamorfose da própria mercadoria, a disjunção da compra e da venda’ (MEW 26.2/511-11) (6) [13]. Esta longa citação é útil porque é suficiente para dar a compreender que se pode falar de uma unidade entre teoria do valor e teoria da crise em Marx. A crise não é uma interrupção temporária que vem perturbar o funcionamento ‘normal’ do capitalismo. A crise constitui antes a verdade do capitalismo. Assim sendo, no ‘conceito’, na ‘forma elementar’ do capitalismo não está apenas contido o facto de o capitalismo ser ‘louco’, mas também o facto de ele só poder evoluir através de fricções contínuas para acabar finalmente por se desmoronar sob o peso da sua própria lógica, ou melhor, da sua não lógica" (p. 121/122) [p. 133/135].

Nota (5) [12] A mercadoria separa o consumo da produção. A unidade entre consumo e produção não significa que cada indivíduo, ou cada célula de produção (uma grande quinta polivalente tradicional, por exemplo), consuma aquilo que produz, num regime de auto-suficiência total. Essa unidade significa antes que a produção está orientada para necessidades antecipadamente conhecidas, como era o caso, por exemplo, das corporações medievais que estabeleciam a quantidade e a qualidade da produção. A unidade deixa de existir a partir do momento em que a produção se encontra dirigida para mercados anónimos, nos quais somente a "mão invisível" decide se o produtor encontrará o respectivo consumidor. Para se suplantar a lógica da mercadoria terá que se restabelecer essa unidade na forma de decisões comuns sobre o uso dos recursos.

Nota (6) [13] Já no Short outline de 1858 Marx escrevia a Engels: "Nota apenas que a não-coincidência entre M-D e D-M é a forma mais abstracta e a mais superficial em que se exprime a possibilidade das crises" (MEW 29/316). Nos Grundrisse, Marx explica-se melhor: "O simples facto de a mercadoria ter uma dupla existência, existindo uma vez enquanto produto determinado contendo idealmente (de maneira latente) o seu valor de troca na sua forma de existência natural, e existindo depois enquanto valor de troca manifesto (dinheiro), que por sua vez se desfez de toda e qualquer conexão com a forma de existência natural do produto, essa dupla existência distinta tem necessariamente de progredir até à diferença, e a diferença até à oposição e à contradição. Esta mesma contradição entre a natureza particular da mercadoria enquanto produto e a sua natureza geral enquanto valor de troca, a qual fez nascer a necessidade de a colocar duplamente, uma vez como mercadoria determinada e outra vez como dinheiro, esta contradição entre as suas propriedades naturais particulares e as suas propriedades sociais gerais inclui desde o princípio a possibilidade de estas duas formas de existência das mercadorias não serem convertíveis uma na outra. A trocabilidade da mercadoria existe apenas no dinheiro, como uma coisa ao seu lado, como algo de diferente, já não imediatamente idêntico" (MEW 42/82). (p. 149) [p. 166]

Além da apresentação da teoria da crise (e em ligação com ela) é sobretudo a exposição da relação entre "trabalho produtivo e improdutivo" que assume o lugar principal no livro de Jappe:

"Já referimos que a diminuição da massa de lucro deriva da diminuição do trabalho produtivo de valor. No capitalismo nem todo o trabalho é trabalho produtivo de valor. Naturalmente não falamos da utilidade real do trabalho, uma vez que esse nível está ausente da lógica da valorização. Trata-se antes da questão de saber se um certo trabalho produz mais-valia. Marx dedicou muita atenção a esta questão, ao passo que de um modo geral os marxistas a negligenciaram, mostrando-se ainda menos capazes de reconhecer a sua conexão com as crises do capitalismo. Deste modo, os marxistas abandonaram o terreno aos economistas burgueses que presentemente querem fazer crer que cada perda de postos de trabalho nos sectores tradicionais (indústria pesada, agricultura, etc.) é amplamente compensada pelos novos empregos e pelas fantásticas possibilidades de ganho que se abrem e que se abrirão ainda mais num futuro próximo no sector dos serviços, na informática. etc. — ignorando completamente que muitas vezes esses trabalhos, quer sejam ‘úteis’ ou não, não são ‘trabalho produtivo’ em sentido capitalista. Para Marx, o único trabalho produtivo em sentido capitalista é o trabalho que cria mais-valia. Os outros trabalhos mais não fazem do que consumir os rendimentos daqueles que os pagam. Se vou ao alfaiate para mandar fazer um fato para meu uso pessoal, não faço uma despesa produtiva e o alfaiate não fez um trabalho produtivo em sentido capitalista. Se emprego o mesmo dinheiro como salário pago a operários da indústria de confecções cujos fatos produzidos depois revendo, ai trata-se de trabalho produtivo, pois serve a valorização do meu capital. A prová-lo está o facto de que a primeira despesa, se a repito um número suficiente de vezes, me deixa sem dinheiro, ao passo que a segunda despesa, depois de várias repetições, deveria fazer de mim um ‘homem rico’ graças à mais-valia extorquida aos trabalhadores (14) [23]. Como é natural, o capitalismo não pode renunciar completamente aos trabalhos ‘não produtivos’. Mas, dado que só o trabalho produtivo constitui a sua ‘essência’, ele tem de procurar limitar os trabalhos não produtivos e transformá-los tanto quanto possível em trabalhos produtivos. Por exemplo, um professor, enquanto tal, não é um trabalhador ‘produtivo’. Mas, diz Marx, se ele trabalha numa escola privada criando mais-valia para o seu empregador, então torna-se produtivo (de capital) (MEW 23/532). A distinção que Marx faz entre trabalho produtivo e trabalho não produtivo foi fortemente atacada, e é muitas vezes acusada de só reconhecer o trabalho material, em particular o trabalho industrial, como produtivo de mais-valia, com exclusão dos serviços e de todos os trabalhos imateriais que hoje supostamente constituem a maior parte do trabalho social. Trata-se de uma acusação falsa, porque Marx nunca identificou no plano conceptual a questão do carácter produtivo ou não produtivo de um trabalho com o respectivo conteúdo material ou imaterial — mesmo se a preponderância do trabalho material no seu tempo lhe sugeria uma quase identidade empírica.

Contudo, hoje em dia é possível determinar melhor a questão do trabalho produtivo. Não se pode decidir num caso isolado se um trabalho é produtivo; a resposta depende da posição desse trabalho dentro do processo completo de reprodução. Só ao nível do capital global se pode ver o carácter produtivo ou não produtivo de um trabalho: as pessoas que no interior de uma empresa estão adstritas às limpezas, por exemplo, ou à contabilidade, são trabalhadores não produtivos. Constituem um mal necessário para a empresa. A organização dessas pessoas em empresas especializadas que oferecem os seus serviços às outras empresas, que deixam portanto de empregar trabalhadores fixos para essas tarefas, cria mais-valia para os proprietários de tais empresas de serviços e constitui o segredo daquilo a que se chama ‘terciarização’. Mas estes lucros para os capitais particulares anulam-se ao nível do capital global (infelizmente este facto não está suficientemente desenvolvido na argumentação de Marx, nem no exemplo acima citado do professor), no qual estas actividades representam sempre uma dedução da mais-valia realizada pelo capital produtivo. Para que um trabalho seja produtivo, é preciso que os seus produtos retornem no processo de acumulação do capital e que o seu consumo constitua a base de uma produção alargada de capital, sendo consumidos por trabalhadores produtivos ou tornando-se bens de investimento para um ciclo que produza efectivamente mais-valia. Assim compreendida, a diferença entre trabalho produtivo e trabalho não produtivo não coincide com a diferença entre bens materiais e serviços, nem com a diferença entre despesas do Estado e investimentos privados — mesmo sendo verdade que a quase totalidade das despesas do Estado representam um consumo não produtivo (armamento, administração pública, educação, saúde, etc.). Também uma parte da produção industrial é hoje não produtiva, uma vez que depende do capital fictício, como veremos (Vd. Robert Kurz, Die Himmelfahrt des Geldes [A ascensão do dinheiro aos céus])". (p. 129/131) [p. 143/145]

Como já foi sugerido, o livro de Jappe apresenta um resumo da "crítica do valor fundamental" dos anos 90, em que a teoria e a crítica da dissociação permanece ainda de todo não esclarecida, embora os seus começos remontem já a 1991/92 (pela primeira vez documentada na "Krisis" 12). Algo de surpresa e quase como nota de rodapé encontra-se no interior da secção "O capital fictício" inesperadamente a menção da teoria do valor-dissociação desenvolvida por Roswitha Scholz:

"São os sucessos do valor que acabam por levá-lo à ruína. A vitória definitiva do capitalismo sobre os restos pré-capitalistas representa também a sua derrota definitiva. Quando o capitalismo plenamente desenvolvido ‘coincide com o seu conceito’, não se chega a uma situação que signifique o fim de toda e qualquer possibilidade de crise, mas antes pelo contrário chega-se àquilo que é o início da verdadeira crise. Com efeito, a transformação do trabalho em valor não pode ter lugar se não estiver rodeada por um grande número de outras actividades que, por seu turno, não podem seguir os critérios da rentabilidade e da transformação em valor, ou são actividades em que o dispêndio de trabalho não é sequer determinável. Os ‘faux frais’ [falsos encargos] da produção representam somente uma parte de tais actividades, e uma parte que se encontra ainda no interior do campo ‘económico’. Muito mais espalhadas, ainda que incalculáveis, encontram-se todas aquelas actividades que são indispensáveis à reprodução social e que se desenrolam fora da esfera ‘económica’. Pode falar-se de um ‘reverso obscuro’ da valorização, ou seja, de uma enorme zona de sombra sem a qual não existiria a luz daquilo que vale como ‘produção’. A parte mais importante destas actividades que não são consideradas ‘trabalho’, e que portanto não são pagas, é efectuada pelas mulheres. ‘O valor é o macho’ diz o título de um ensaio de Roswitha Scholz publicado na revista Krisis n.° 12 (1992) (17) [29]. Apesar do seu carácter abstracto, o valor não é ‘sexualmente neutro’, porque se baseia numa ‘dissociação’: tudo o que é susceptível de criar valor é ‘masculino’. As actividades que em caso algum podem tomar a forma do trabalho abstracto, e sobretudo a criação de um espaço protegido onde o trabalhador possa repousar das suas fadigas, são estruturalmente ‘femininas’ e não são pagas. É uma das razões por que a sociedade capitalista negou durante muito tempo à mulher o estatuto de ‘sujeito’ (por exemplo, o direito de voto). Na sociedade da mercadoria, só o indivíduo que despende trabalho abstracto é considerado como sujeito de pleno direito. As outras actividades, por mais fatigantes e necessárias que sejam, mas que não alcançam a ‘dignidade’ de serem consumidas directamente pela máquina da valorização, permanecem marcadas com o estigma da inferioridade. É, pois, uma consequência da lógica do valor o facto de se considerar que a mulher que trata do sogro idoso não ‘trabalha’, ao passo que o marido, que produz bombas ou porta-chaves, esse sim, ‘trabalha’. É certo que nas últimas décadas muitas mulheres passaram a ser ‘sujeitos’ no sentido da mercadoria, chegando mesmo por vezes a ocupar lugares de direcção. Mas para tanto precisaram de se tornar ‘machos’: com efeito, a ‘dissociação’ operada pelo valor implica também que o sujeito capitalista desenvolva em si mesmo somente as qualidades necessárias ao sucesso no mundo do trabalho, e essas qualidades são estruturalmente consideradas como sendo ‘masculinas’: autodisciplina, racionalidade, lógica, firmeza relativamente a si próprio e aos outros. A sua parte ‘feminina’ é inteiramente delegada nas mulheres que devem utilizá-la para ‘mobilar’ o repouso do guerreiro. O facto de hoje em dia essas qualidades, que são evidentemente culturais, poderem estar desvinculadas dos seus portadores biológicos mais não faz do que reforçar o mecanismo estrutural: aquele que, homem ou mulher, se comportasse no mundo do trabalho segundo critérios tradicionalmente ‘femininos’, como a compaixão, não iria muito longe." (p. 138/139) [p. 152/154]

Nota 17 [29] em anexo ao capítulo:

Veja-se da mesma autora Das Geschlecht des Kapitalismus. Feministische Theorien und die postmoderne Metamorphose des Patriarchats [O sexo do capitalismo. Teorias feministas e a metamorfose pós-moderna do patriarcado], Horlemann – Edição Krisis, Bad Honnef, 2000. (p. 152) [p. 170]

É de louvar o facto de Anselm Jappe fazer referência a esta temática e à sua autora, bem como dar a conhecer aos leitores esta publicação. Todavia este pequeno excurso, que não assume importância própria e aparece num contexto completamente diferente, encerra a armadilha e o perigo da exposição superficial que apaga o princípio da crítica do valor-dissociação. As alusões referidas não são, de todo, suficientes para esclarecer de uma forma clara que a valorização do valor e a dissociação estão em relação dialéctica, por assim dizer ao "mesmo nível", e que as duas em conjunto constituem o princípio básico social central do patriarcado produtor de mercadorias. Isto é válido principalmente para evitar o erro comum de que o "dissociado" seria, de certo modo, a parte melhor e ontológica, uma espécie de "área livre" já para lá do valor, e assim constituiria o ponto de partida para uma revolução, em vez de o criticar radicalmente e de o determinar como o outro lado da mesma relação, ele próprio a ser superado. A questão crítica que fica em aberto é se para Anselm Jappe e/ou para os leitores franceses não seria exigir de mais que ele tivesse dedicado um capítulo completo à problemática do valor-dissociação [Wert-Abspaltung] (o mais provável é que na língua francesa terá ainda de ser encontrado o termo certo, ou a melhor forma de transcrever esta palavra de criação alemã). De todo o modo esta é uma tarefa que ainda aguarda realização. Possivelmente Anselm Jappe dedicará a este assunto um artigo no seu novo livro, projectado primeiro para língua francesa, "As Aventuras do Sujeito", no qual o valor-dissociação assumirá uma maior importância e se transformará efectivamente num princípio básico. É lícito que fiquemos a aguardar.

Nos dois últimos capítulos (p. 195-240) [p. 215-266], Anselm Jappe dá a conhecer aos leitores, após ter explorado o núcleo da análise de Marx, que, por um lado, "as leis que regulam a sociedade fetichista foram igualmente objecto de outras investigações, nomeadamente no âmbito da antropologia cultural, (...) [as quais] contribuíram com análises muito importantes em domínios que escaparam aos marxistas tradicionais: a crítica do fetichismo e a crítica da economia. Não atingem, porém, o nível de compreensão das formas de base que distingue a obra de Marx" (p. 15) [p. 15]. Assim, baseado em estudos do filósofo francês Durkheim, Jappe chega à tese de que "A objectividade do valor também deve ser considerada como uma ‘projecção’ no sentido antropológico" e que "é possível classificar o conceito de fetichismo da mercadoria dentro do conceito antropológico de fetichismo ou de totemismo. O totem da sociedade moderna é o valor, e o poder social que é projectado sobre este totem é o trabalho, enquanto actividade fundamental do homem na sociedade produtora de mercadorias" (p. 196) [p. 217].

Na secção "A dádiva em vez do valor" Anselm Jappe demonstra, baseado em estudos antropológicos de autores como Marcell Maus, Marshall Sahlins, Louis Dumont e até do sociólogo anglo-húngaro Karl Polanyi (The Great Transformation, 1944), que "a troca de equivalentes não é a única forma possível de socialização e que a subordinação total da sociedade às exigências do trabalho produtivo, tal como a condição prévia dessa subordinação, nomeadamente a desvinculação da "economia" e do "trabalho" do conjunto do domínio da vida, representam um fenómeno relativamente recente, limitado somente à sociedade capitalista" (p. 203) [p. 223].

Por outro lado, Jappe confronta-se do ponto de vista da crítica do valor com teorias e ideias contemporâneas de grande influência actual "na rede da crítica da globalização", as quais não raro se expressam e agem nas actuais condições sob o slogan "O mundo não é uma mercadoria". Com este debate ele pode tornar claro, visando os protagonistas comuns deste princípio – como "ATTAC", a revista internacional de grande tiragem "Le Monde diplomatique", o sociólogo francês de grande prestígio Bourdieu, ou a figura de proa do sindicato de agricultores alternativo Confederation Paysanne, José Bové – que a reacção à actual "miséria do mundo" (Bourdieu) na maior parte dos casos se fica pelas tiradas contra a política neoliberal e pela invocação saudosista do regresso das políticas, tempos e soluções keynesianas, sendo que nesta, por assim dizer, conjuração e crítica teórica redutora do capitalismo, de quando em vez também se tornam virulentos nacos de anti-semitismo estrutural (p. 222) [p. 244 e ss].

Do mesmo tom é também a crítica que Anselm Jappe faz a ensaios cheios de pretensões, como, entre outras, ao movimento de apoio a Marcel Mauss, "MAUSS" (Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais), os assim chamados „Teóricos da Dádiva", os quais se bateram por um mais forte reconhecimento da cooperação fora da forma mercantil na sociedade da mercadoria e do valor, até uma "sociedade dual", sem quererem ver nisso qualquer contradição insolúvel. Anselm Jappe mostra a limitação e o beco sem saída dessas teorias reformadoras da vida ou das pequenas práticas sociais de bricolagem (anéis de troca, lojas gratuitas, etc. ou mesmo as free software community), as quais julgam, entre outras coisas, que se poderia começar imediatamente com algumas "dádivas" e eventualmente sair da sociedade mercantil em pequenos grupos. "Será melhor dar do que vender?" (p. 231-240) [p. 253-257] é o título desta secção, na qual Jappe critica André Gorz, cujas perspectiva de „no-profit" e fábula de um rendimento básico incondicional, entre outras polémicas contra a sociedade de trabalho, ele questiona acertadamente, enquanto reais alternativas emancipatórias. Jappe fecha esta secção com a retoma da crítica já desenvolvida noutro lugar aos autores de "Empire" Negri/Hardt, cujo discurso ele apelida de "A última mascarada do marxismo tradicional".

De qualquer modo, Anselm Jappe neste seu livro torna claros critérios e pontos cruciais, que não devem ser ignorados, desde os esforços emancipatórios que prometem êxito em torno de "saídas da sociedade mercantil", até à realização da ideia de "vida boa" para lá de "serviço do deus-fetiche-dinheiro". "Last but not least", fica a minha opinião: Anselm Jappe sabe, na verdade, transmitir ao leitor alguma da paixão que o autor sente por esta temática. Confrontar-se com o livro "As Aventuras da Mercadoria" é uma aventura que vale a pena.

Anselm Jappe Die Abenteuer der Ware. Für eine neue Wertkritik, Unrast-Verlag Münster 2005 ISBN 3-89771-433-7.

[Anselm Jappe AS AVENTURAS DA MERCADORIA. Para uma nova crítica do valor, Editora Antígona, Lisboa 2006, ISBN 972-608-176-9]

Original da recensão VOM MARXISMUS ZUR WERTKRITIK. Über den Versuch Anselm Jappes, " … dem Leser die Leidenschaft zu übermitteln, die sein Autor für das scheinbar so abstrakte Thema des Werts verspürt". Ein Blick auf Jappes Buch „Die Abenteuer der Ware. Für eine neue Wertkritik" in revista EXIT! Krise und Kritik der Warengesellschaft, 3/2005 [EXIT! Crise e Crítica da Sociedade da Mercadoria, nº 3, 2006], ISBN: 3-89502-205-5, Horlemann Verlag, Postfach 1307, 53583 Bad Honnef, Tel 0 22 24 - 55 89, Fax 0 22 24 - 54 29, http://www.horlemann-verlag.de/

Tradução de Virgínia Freitas e Boaventura Antunes, 03/2006

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http://www.exit-online.org/