UMA ERA GLACIAL PARA A TEORIA CRÍTICA?

Carta Aberta às interessadas e interessados na EXIT!

 Robert Kurz

Por altura da passagem de ano, na feira anual pós-moderna das vaidades, é costume cada um apresentar a respectiva loja, com toda a modéstia, como história de sucesso e alardear optimismo. Mesmo quando isso não é de todo verdade, o business as usual está na ordem do dia em todas as áreas sociais. A reflexão teórica mais uma vez corre o risco de se afogar no pragmatismo geral, e de um modo crescente à medida que a precarização se vai tornando o pano de fundo da vida quotidiana. No entanto o pragmatismo apenas seria possível, no sentido duma acção consciente e duma relação aberta com os recursos humanos e com a natureza, se a "jaula de ferro" da "segunda natureza" capitalista fosse rebentada por um movimento de transformação de toda a sociedade. Enquanto nada disso se vir, a teoria crítica tem de manter a distância em relação a todas as formas de praxis imanente. O pragmatismo, enquanto –ismo, constitui à partida uma ideologia, e cruza-se com os modos de digestão da crise destrutivos e exclusionistas, mesmo quando ele se apresenta como filantrópico ou até emancipatório.

Quando nos media se fala de uma "viragem à esquerda", seja de partes da classe política cá da terra, ou por exemplo da América Latina, tal nada tem a ver com a capacidade de influência social da reflexão crítica. A força motriz essencial da superficial alteração do ambiente social não é a crise mundial da terceira revolução industrial, que continua a alastrar, mas, pelo contrário, a ilusão de uma estabilização económica, embora a tão invocada retoma já esteja novamente a fraquejar. Enquanto as intervenções dos bancos centrais, marcadas pelo pânico, assinalam o fim da conjuntura do déficit, esta é projectada esperançosamente numa onda longa portadora de prosperidade, que há-de abrir novas possibilidades de acção prática. O que a consciência social mais gostaria era de sentir qualquer sopro de calor social, sem ter de se confrontar com as condições capitalistas da sua constituição. Mas para além de Knut (1) nada mais se vislumbra.

O facto de o mercado das ideias ser inundado por um alarido de conceitos baratos remete apenas para a crescente dificuldade da legitimação política. A euforia económica oficial está em oposição crassa com a experiência prática de vida da maioria, que não viu retoma nenhuma. Nesta situação surge uma certa tensão ideológica entre os gestores das bolhas financeiras e a casta política dependente das sondagens. Neste contexto, o consenso neoliberal transversal aos partidos não desaparece, mas ganha uma carga populista tanto maior quanto mais se fortalece a acusação recíproca de populismo. A perspectiva de alívios com Hartz IV, que no entanto não devem custar nem um cêntimo, campanhas contra a "criminalidade dos jovens estrangeiros", apelos ao capital "criador" e críticas baratas aos "salários demasiado elevados dos gestores" disputam entre si a primazia. Por outro lado, o debate sobre o clima, juntamente com a viagem de turismo da chancelerina à Gronelândia, devem sugerir consciência do problema ecológico. Não falta muito para que os moralistas dos partidos e do governo, seguindo as pisadas de Heiner Geissler, se inscrevam em bando na Attac ou na Greenpeace, para simultaneamente defenderem as emissões demasiado elevadas dos escapes dos espampanantes automóveis da indústria alemã face à concorrência dos pequenos veículos europeus.

As destinatárias, no fundo, são as classes médias ameaçadas de queda, que gostariam de celebrar a sua "nova condição burguesa" mesmo na precarização e se esganam por alimentação biológica de elevada qualidade, enquanto a situação dos já completamente desclassificados é imputada a maus hábitos alimentares e a falta de educação. Com isto condizem os prémios de natalidade selectivos da ministra da família, atormentada pela ameaça de morte biológica da classe média alemã; já às mulheres da camada inferior que, como é sabido, se dedicam ao infanticídio, pretende-se impor o freio estatal, embora os meios postos à disposição dos serviços de apoio à juventude continuem a ser objecto de reduções. E, quanto mais horripilantes se apresentam as contradições, mais alto soa o apelo ao "sentido cívico", para pragmaticamente dar conta das "catástrofes naturais da sociedade" que se vão multiplicando no meio de toda a prosperidade fantasiada.

A fundação do Linkspartei não constitui um contraponto a esta estranha "viragem à esquerda", mas é parte integrante da mesma; e não apenas no que diz respeito à novamente requentada ilusão de uma via oficial para a democracia política. O marxismo de partido passou à história, a "marcha através das instituições" há muito que fracassou. Apadrinhou-a, não uma renovação da teoria de Marx, mas um pragmatismo de esquerda na melhor das hipóteses keynesiano, que grassa, em termos teóricos, tanto junto da esquerda tradicional remanescente, como no seio do movimento crítico da globalização. Mas o populismo da ala Lafontaine regride ainda para trás da própria teoria burguesa da economia política nacional de Keynes. A orientação nacionalista de esquerda desta posição dominante vai de par com um sinistro "Internacionalismo", que procura aplicar as antigas palavras de ordem à nada santa aliança anti-americana do regime de petróleo caudilhista de Chaves com o regime anti-semita dos Mulahs do Irão. Para a teoria crítica não pode estar na ordem do dia farejar uma base de alimento em tais contextos e cobiçar os tachos dos 12 % (2).

Mesmo a esquerda do movimento não suscita quaisquer sentimentos primaveris para a elaboração da teoria crítica, antes pelo contrário. Depois de Heiligendamm (3) tornou-se claro o esgotamento de uma cultura de protesto meramente simbólica. Quanto mais se desvanecia a recordação da crítica radical da economia política, tanto mais os movimentos de protesto se tornavam acessíveis aos ideologemas da crítica truncada ao capitalismo, nos quais entroncam estratégias de frente transversal do populismo de direita. Enquanto esta conexão não for posta a descoberto, e em vez disso o anti-semitismo estrutural do impropério contra o capital "parasitário" da finança e da informação for encoberto como "inocente", de nada serve o alibi do distanciamento dos "descarrilamentos" claramente anti-semitas.

O fundamento de tal posição em termos de teoria do conhecimento é um "pragmatismo do movimento", tal como ele resulta, por exemplo, da subjectivação pós-operaista das relações de fetiche capitalistas, cujo reverso é constituído pelo desarmamento no que à crítica da ideologia diz respeito. Depois de desde há uns tempos o princípio da tentativa e erro dos zapatistas mexicanos, oficialmente afastado do Estado, ter sido tomado como paradigma de um romantismo essencialmente inimigo da teoria, parece agora esboçar-se uma reorientação neo-estatista de uma parte da esquerda do movimento. O leninismo da diferença pós-moderno aposta novamente mais na qualidade estatal da "viragem à esquerda" latino-americana à moda de Chavez, e gostaria de também cá na terra incluir a política partidária parlamentar na "multiplicidade" descomprometida das abordagens, para se imunizar definitivamente contra a reflexão teórica.

O congresso de Frankfurt "No way out", em Dezembro, honrou o respectivo nome, uma vez que não pretendeu tematizar as contradições de conteúdo, mas, apesar delas, dissolvê-las no pragmatismo do movimento. Correspondendo à quadra natalícia, ele não passou de uma espécie de venda de Natal do pluralismo de esquerda. Pelos vistos, o espectáculo constituiu uma "indicação inequívoca" apenas no que diz respeito à crítica da relação burguesa entre sexos, que só surge no programa oficial como versão truncada, ficando assim documentado o fracasso do feminismo na esquerda do movimento. O universalismo androcêntrico teoricamente desarmado do homem da classe média transformado em dona de casa parece ser a medida de todas as coisas.

É neste ambiente que naturalmente também teve de navegar uma "crítica do valor" de rebotalho, desenfreadamente moderada, para anunciar à parte do público menos esclarecida como, no pivete da própria fauna, uma pessoa consegue, até certo ponto, cultivar-se como "novo homem-macho". Se a acutilância teórica da crítica do sujeito só é um pouco amenizada por um pragmatismo obtuso, esta é a mensagem, então uma pessoa desloca-se já quase "para além da forma do valor", pelo menos com o traseiro. Uma vez que aqui as lojas gratuitas e as oficinas alternativas de bicicletas aparentemente perderam o encanto, agora quer-se que uma "economia de iguais" virtual satisfaça as necessidades de terapia ocupacional dos pequenos adeptos do bricolage social. Isto, é certo, é um contributo para a renovação da crítica social quando muito no mesmo sentido em que uma tripulação da Jamaica já alguma vez participou nos jogos olímpicos de Inverno com um trenó de quatro lugares. Mas as coisas são o que são, e os rebentos da classe média bafejados com a "crítica do valor" gostam de um entretenimento despretensioso. E, porque neste espaço o pluralismo é altamente elástico, em 2007, na revista que em Viena aplaude a crítica do valor barata, também foi autorizada a expressão do arrazoado mais altamente pragmático sobre as inquietações existenciais dos bombistas suicidas islâmicos, cuja motivação, como é sabido, reside sobretudo na elevada mortalidade infantil do próximo oriente. Ora, se serve para fazer subir o número de assinaturas, que bem necessitado está...

Tudo isto equivale a uma nova era glacial para a elaboração teórica da crítica do valor e da dissociação feita pela EXIT!, porque esta tem de ser um inimigo inconciliável do falso pragmatismo, que retorce a reflexão sempre para mero instrumento e legitimação ideológica? A famosa mediação de crítica teórica e revolução [Umwälzung] prática só pode consistir em que se forme um movimento social em toda a sociedade, com real poder de intervenção contra a administração da crise. A ideologia da luta de classes não é de criticar porque propaga a luta social, mas porque permanece anacronicamente enleada na ontologia do trabalho, na forma do valor e na relação de dissociação sexual. A palavra de ordem "desligai-vos!" torna-se uma frase vazia, se faz da necessidade virtude, para, contornando a socialização negativa, se safar para ilhas de economia alternativa, que não é em vão que cada vez mais se encontram sedeadas na "Second Life" do espaço virtual.

Não é vocação da teoria crítica "ir buscar as pessoas onde elas estão". Essa é a vocação dos politicastros do pragmatismo e dos populistas, mesmo se camuflados de "anti-políticos". Enquanto não se alcançar o limiar da resistência real e da confrontação social geral, a teoria crítica do valor e da dissociação apenas pode acompanhar analiticamente e com a crítica da ideologia os conflitos sociais do processamento imanente das contradições conforme vão deflagrando, sem se deixar dissuadir do distanciamento conceptual. A contribuição da praxis teórica para o revolucionamento das relações consiste sobretudo em continuar a desenvolver, sem vacilar, no seu próprio terreno, a nova crítica do capitalismo, e com ela a "desintegração dos conceitos" dos velhos paradigmas, que ainda falta muito para estarem despachados.

Um apelo para apoiar materialmente tal programa pode ser que passe ao lado do mainstream do pragmatismo do movimento. Apesar disso sabemos que existem algumas pessoas que estão interessadas em que a voz da EXIT! não se cale. Precisamos urgentemente de mais meios financeiros para seminários, encontros de trabalho e projectos de publicação. Daí a exortação às interessadas e interessados para também em 2008 fazerem algo por este projecto, de forma activa ou passiva. As possibilidades são as mesmas de sempre.

Robert Kurz pela redacção da EXIT!, Janeiro de 2008

  1. Urso polar nascido no jardim zoológico de Berlim em Dezembro de 2006, que foi abandonado pela mãe ursa e criado pelos tratadores, tornando-se um caso sério de interesse do público (NT).
  2. Percentagem de votação prevista para o Linkspartei numa sondagem de Janeiro de 2008 (NT).
  3. Referência às manifestações contra a cimeira do G-8 nesta cidade do Báltico em Junho de 2007 (NT).

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