Robert Kurz

A Substância do Capital

O trabalho abstracto como metafísica real social e o limite interno absoluto da valorização.

Segunda parte: O fracasso das teorias da crise do marxismo da ontologia do trabalho e as barreiras ideológicas contra a continuação do desenvolvimento da crítica radical do capitalismo.

Resumo do texto no Editorial da EXIT! nº 2:

Na segunda parte do estudo fundamental começado na EXIT! nº 1, "A Substância do Capital", Robert Kurz ocupa-se com o problema da quantidade de trabalho abstracto como fundamento da teoria da crise. Inicialmente esta análise, em continuação do desenvolvimento das abordagens dispersas sobre a obra marxiana, deveria já desenvolver a sistematização de uma teoria positiva da crise, baseada nos conceitos de mais-valia absoluta e relativa, composição orgânica do capital e relação entre taxa de lucro e massa de mais-valia. Constatou-se todavia que os aspectos histórico-teóricos e crítico-ideológicos do problema da quantidade e da crise, por si só ocupam um espaço tal, que a própria apresentação da lógica de crise imanente só pode continuar na EXIT! nº 3 (a necessária quarta parte que esta situação originou, abordará o contexto sistema de crédito / capital fictício / virtualismo pós-moderno etc.). Neste número são minuciosamente tratados os temas do debate marxista histórico sobre a teoria da crise, principalmente a controvérsia em torno das teorias do colapso de Rosa Luxemburg e Henryk Grossmann. Fica demonstrado que o marxismo tradicional, devido à sua ontologia do trabalho, no seu todo não foi capaz de absorver elementos decisivos da teoria da crise de Marx. Como a definição transhistórica da abstracção do trabalho falhou a qualidade específica deste como substância do capital, teve forçosamente de falhar também a questão central da problemática da crise como "dessubstancialização" ou desvalorização do valor. O resultado foi uma até hoje duradoura banal subjectivação das categorias politico-económicas, sobretudo pelo "marxismo ocidental". Em geral, este fracasso teórico na estrutura-sujeito-objecto da moderna relação de fetiche constitui a história secreta dos debates marxistas sobre a crise e o colapso, que deste modo teve de desvanecer-se na ilusão de um comando político das inultrapassadas categorias do fetichismo. Completamente às escuras e ideologicamente "abandonado" fica o problema da quantidade do trabalho abstracto nas mais recentes teorias, ligadas a I. I. Rubin, na medida em que elas querem desqualificar como "fisiológico-naturalista" o próprio conceito de substância de Marx. A polémica controvérsia sobre isso, juntamente com as teorias de Moishe Postone e principalmente de Michael Heinrich, fecham esta segunda parte do estudo.

Subtítulos:

"Teoria do colapso" como palavra de toque e conceito de falsificação da história da teoria marxista *** Teorias do colapso reduzidas como posição minoritária marxista na época da guerra mundial I: Rosa Luxemburgo *** Teorias do colapso reduzidas como posição minoritária marxista na época da guerra mundial II: Henryk Grossmann *** Da diabolização de Grossmann ao atrofiar do debate marxista da crise e do colapso *** Sujeito e objecto na teoria da crise. A solução aparente do problema em meras relações de vontade e de forças *** A crise e a crítica, a ilusão política e a relação de dissociação sexual *** O conceito de quantidade de trabalho abstracto e a acusação de "naturalismo"

"Teoria do colapso" como palavra de toque e conceito de falsificação da história da teoria marxista

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Teorias do colapso reduzidas como posição minoritária marxista na época da guerra mundial I: Rosa Luxemburgo

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Teorias do colapso reduzidas como posição minoritária marxista na época da guerra mundial II: Henryk Grossmann

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Da diabolização de Grossmann ao atrofiar do debate marxista da crise e do colapso

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Sujeito e objecto na teoria da crise. A solução aparente do problema em meras relações de vontade e de forças

Se voltarmos a passar em revista todo o debate histórico, duas realidades chamam a nossa atenção. Por um lado, a fobia à ideia de um limite interno da valorização do valor não se encontra realmente associada às conjunturas sociais da economia e da política, de crise e prosperidade. A chamada teoria do colapso foi desde o início um escândalo e um incómodo extremo, tanto durante os pachorrentos tempos das notabilidades marxistas do império Guilhermino, como na época de catástrofes das guerras mundiais e da crise económica mundial, e mais ainda na era de prosperidade do pós-guerra, e por fim também hoje de novo na crise mundial da terceira revolução industrial. O escândalo manteve-se e mantém-se independentemente de experiências históricas específicas, e a ideia de um limite absoluto imanente nem sequer no meio das maiores catástrofes da história mundial se tornou hegemónica no discurso marxista mainstream.

Por outro lado, porém, é gritante a falta de profundidade da reflexão teórica em todo este debate, a rapidez com que se passa por cima da questão do conceito da dinâmica capitalista e o pouco que se tem em vista todo o instrumentário conceptual já apresentado por Marx. A crítica não é tanto desenvolvida de um modo imanente e fundamentado na coisa em si, nomeadamente nas contradições internas da reprodução capitalista no âmbito de um processo histórico dinâmico, mas pretende-se sim passar autenticamente ao lado da coisa, para chegar quanto antes a outra coisa completamente diferente. O grande escândalo ainda nem sequer é a ruptura iminente com a ontologia do trabalho marxista, que afinal não se vê em lado nenhum, uma vez que mesmo as teorias do colapso de Luxemburgo e Grossmann nunca abandonam esse terreno. Em todo o caso deverá ter havido um vago pressentimento deste problema, que transformou esse horror vacui do marxismo do trabalho face à perda de substância em motivação inconfessa.

Outra coisa, porém, é desde logo plenamente evidente e ocupa um amplo espaço em todo o debate: nomeadamente o que é sentido como uma ameaça e um desaforo, que um colapso objectivo da valorização devido às suas próprias contradições internas poderia, por assim dizer, roubar o emprego ao proletariado, à maravilhosa classe operária, lançando-a no desemprego, não só no sentido da reprodução imediata, mas igualmente como sujeito histórico. É esta a causa mais profunda da fobia à ideia de colapso. Aqui, no essencial, nem sequer se trata de uma questão da reflexão crítica da economia, no contexto da teoria da crise marxista, mas de uma coerência ideológica básica, que só pode ser apreendida com recurso à crítica ideológica e não à teoria da crise.

Com efeito, já Otto Bauer, no debate em torno da teoria da acumulação de Luxemburgo, nomeara o sujeito proletário como uma espécie de testemunha principal contra a lógica do colapso: "O capitalismo não fracassará perante a impossibilidade mecânica de realizar a mais-valia. Sucumbirá antes à indignação que infunde às massas populares. O capitalismo desmoronar-se-á, não apenas quando o último agricultor e o último pequeno-burguês em todo o mundo forem transformados em trabalhadores assalariados e, assim, não subsistir à disposição do capitalismo mais nenhum mercado a desbravar; será abatido muito mais cedo pela crescente indignação da classe operária que se encontra em constante crescimento, e que é formada, unificada e organizada pelo mecanismo do próprio processo de produção capitalista" (Bauer 1913, citado seg.: Rosa Luxemburgo 1923/1914, p. 481).

O argumento do sujeito de vontade proletário como deus ex machina deve decidir o debate da teoria da crise, que, agudizada em teoria do colapso, é denunciada como "objectivista e determinista". Ora, o facto de esta recriminação ser dirigida precisamente contra Rosa Luxemburgo, que ao mesmo tempo se tinha destacado como teórica da espontaneidade proletária, da greve de massas e do activismo revolucionário contra a lei da inércia reformista da social-democracia, constitui na verdade uma piada de mau gosto. Pelo que Rosa Luxemburgo não tarda em ripostar a Otto Bauer, atirando-lhe à cara o seu oportunismo, por altura da catástrofe da guerra mundial. Logo um semelhante teórico da mais infame afirmação do domínio capitalista havia de pôr em acção o "sujeito de classe revolucionário"! Ainda assim aqui espreita o problema por resolver da relação-sujeito-objecto na sociedade burguesa moderna.

Rosa Luxemburgo argumenta de modo antes de mais defensivo, quando na sua Anticrítica se refere a este problema: "O esquema da acumulação de Marx - se for bem entendido - precisamente na sua irresolubilidade, é o prognóstico exacto da ruína economicamente inevitável do capitalismo como resultado do processo de expansão imperialista... Poderá esse momento alguma vez tornar-se realidade? No entanto tudo isto não passa de uma ficção teórica, precisamente porque a acumulação do capital é um processo não apenas económico, mas antes político... Aqui, como noutros momentos da História, a teoria faz o seu serviço completo se nos apresentar a tendência do desenvolvimento, o ponto final lógico para o qual ela aponta objectivamente. Este tão-pouco pode ser alcançado como em qualquer período anterior da História pôde o desenvolvimento social desenvolver-se até às últimas consequências. Tanto menos precisa de ser alcançado quanto mais a consciência colectiva, desta feita encarnada no proletariado socialista, intervier como factor activo no cego jogo das forças. E a concepção correcta da teoria de Marx oferece a esta consciência, também neste caso, as propostas mais férteis e o incentivo mais vigoroso" (Luxemburgo 1914, ibidem, p. 479, itálico de Luxemburgo).

Evidentemente o problema não fica resolvido com estas observações. A tendência para o colapso não poderia antecipar-se ao proletariado e substituir-se a ele, antes que o mesmo conseguisse levar à prática a sua "intervenção activa"? Por outro lado: será que o proletariado apenas pode intervir porque tem pelas costas esta tendência objectiva? Não poderia ele alcançar a emancipação social de um modo plenamente independente de semelhante tendência? A relação entre sujeito e objecto permanece por esclarecer; apenas se torna evidente que tal relação deve existir e que, exactamente na sua indefinição, pode ser instrumentalizada contra a teoria do colapso. Tal também tem algo a ver com a frequentemente apontada debilitação da auto-consciência humana pelas grandes teorias científicas e sociais da modernidade. Se o iluminismo entronizara, por um lado, o sujeito autónomo como demiurgo de si mesmo, a reflexão crítica, por outro, infligiu-lhe uma queda tanto mais dolorosa. Como é sabido, já Copérnico tinha banido o ser humano do centro do Universo; Freud negou-lhe a plena consciência psíquica de si mesmo; e em Marx o fetichismo do sistema produtor de mercadorias acaba também com a subjectividade politico-económica como último fundamento do desenvolvimento socio-económico. Estas observações já há muito que se tornaram o topos dos discursos da teoria social. Como é do conhecimento geral, o estruturalismo e a teoria dos sistemas prosseguiram afirmativamente nesta senda, onde o sujeito já é apenas uma sombra de si próprio, ou o mero "ambiente" de um contexto sistémico auto-referencial.

Se descermos deste patamar, que ainda não teve oportunidade de desempenhar nenhum papel de relevo nos debates marxistas da teoria do colapso, o problema parece desde logo diminuir um tanto de dimensão. Face à sua concepção especial da "acção do sujeito", não dava jeito nenhum à social-democracia um colapso, um cataclismo da sociedade. Pois a sua ideia era que o grau cada vez maior de organização social do capital apenas teria de ser transferido para a mão do Estado, e desta de novo para a mão do proletariado (como acontece, por exemplo, em Hilferding), para se chegar ao Socialismo com toda a calma e pela via da acção parlamentar. Nesta medida o desejo reformista espreitava à esquina como pai do pensamento, por exemplo quando Gustav Eckstein, na sua polémica contra Rosa Luxemburgo, constatava quase com alívio: "Com os pressupostos teóricos caem por terra as consequências práticas, antes de mais a teoria da catástrofe que a camarada Luxemburgo edificara sobre a sua doutrina da necessidade da existência de consumidores não capitalistas" (Eckstein, ibidem, p. 493). Tanto mais acutilante acabou por ser a reacção de Rosa Luxemburgo na sua Anticrítica, redigida já depois de irromper a verdadeira catástrofe da guerra mundial; agora ela referia-se à "catástrofe como forma de existência [Daseinsform]"(ibidem, p. 480) do capitalismo imperialista.

Mas o debate de modo nenhum se resumia à oposição entre as teorias "reformista" e "revolucionária" do agir subjectivo. Também as posições comunistas e outras posições activistas revolucionárias, que no fundo não precisavam de ter tanto medo de um cataclismo, atacaram a teoria do colapso com veemência redobrada, devido ao seu "objectivismo e determinismo". Bukharine, por exemplo, acusa Rosa Luxemburgo de "determinismo económico" (Bukharine, ibidem, p. 284), quando ele próprio parece cair no mesmo logo duas páginas depois, onde acaba por dizer sobre as instabilidades e crises cíclicas e a sua "resolução condicionada": "A sua amplitude e intensidade crescentes conduzem inevitavelmente ao colapso da dominação capitalista" (ibidem, p. 286, itálico de Bukharine).

A ideia da "inevitabilidade" é evidentemente ela própria determinista, mas paradoxalmente é-o de um modo afirmado em sentido puramente subjectivo, quando Bukharine finalmente desvenda como a entende por oposição ao "determinismo económico": "Hoje já estamos em posição de não mais nos permitirmos ajuizar sobre o processo do colapso capitalista apenas com base em construções abstractas e perspectivas teóricas. O colapso do capitalismo já começou. A revolução de Outubro é a expressão mais viva e convincente disso mesmo. A revolucionarização do proletariado teve, sem dúvida, que ver com a ruína económica, esta com a guerra, a guerra com a luta por mercados para o escoamento da produção, mercados de matérias primas, esferas de investimento de capitais, em resumo, com a política imperialista no seu todo" (ibidem, p. 287, itálico de Bukharine).

É evidente que Bukharine aqui coloca o conjunto do problema de pernas para o ar. O limite interno objectivo da valorização do valor com base nas suas próprias contradições converte-se em outro, puramente subjectivo e político, em limite de uma mera relação de vontades. A crise provém da esfera política, de onde também provém a emancipação ou a revolução, ao passo que a chamada economia, que na realidade constitui a lógica básica da valorização do valor, abrangente de todas as esferas oficiais, se reduz a um ameno ruído de fundo, e na verdade bastante irrelevante para o curso dos acontecimentos. O conceito do colapso é neste contexto uma embalagem enganadora. É que um colapso é por essência algo de objectivo, sofrido de forma passiva, condicionado por leis naturais ou sistémicas, e não um acto de vontade ou uma relação de vontade. Um colapso é quando uma pessoa sofre uma grave perturbação circulatória ou um enfarte, quando uma ponte se desmorona por excesso de peso, um motor gripa, uma estrela se contrai em um buraco negro, ou uma conexão sistémica (por exemplo um programa de computador) se torna instável e "crasha" etc. O termo torna-se desadequado quando se trata de actos de vontade num conflito consciente. Mas mais importante ainda é que Bukharine, na sua deturpação, acaba por dar mais uma cambalhota, fazendo no acto uma revelação involuntária. É que, embora subjective a objectividade do colapso, a reduza à política, ao mesmo tempo e inversamente objectiva esse mesmo sujeito, ao declarar a sua actuação "inevitável" e por conseguinte determinada. Chegados a este ponto deparamos novamente com a não solucionada problemática-sujeito-objecto da modernidade.

E este problema vai-se repetindo e vai sendo arrastado através de todo o debate em torno da crise ou do colapso. Assim reaparece também nas tiradas de Eugen Varga contra Grossmann, alguns anos mais tarde. Também Varga retira do formol o sujeito (sujeito de classe) como deus ex machina. "Ele (Grossmann, R.K.) separa a economia da luta de classes; por isso, o seu ‘colapso’ não é a derrocada da ordem social capitalista, mas sim uma fantasia puramente económica..." (Varga, ibidem, p. 68, itálico de Varga). E, como em Bukharine, a "vontade determinada" acaba por se condensar no poder soviético, que torna supérflua qualquer teoria da crise no sentido de mecanismos sistémicos cegos. "Quem, no ano de 1929, tem a coragem de publicar um livro de seiscentas páginas sobre a ‘lei do colapso’ do capitalismo sem dizer uma palavra sobre o colapso do capitalismo já ocorrido na Rússia, por muitas citações de Marx que acumule, por muito doutas que sejam as suas considerações sobre o método do marxismo - quem faz tudo isto não compreendeu o abc do método de investigação marxista!... O motivo pelo qual se cala tão obstinadamente a queda do capitalismo na Rússia é por ser perfeitamente evidente que essas causas, que segundo Grossmann haveriam de ser responsáveis pela derrocada do capitalismo, não tiveram a mínima importância na derrocada do capitalismo realmente ocorrida na Rússia. De facto seria ridículo afirmar-se que o capitalismo na Rússia - a qual, como é sabido, era um país muito pobre em capital, que não parava de importar grandes quantias de capital estrangeiro - tivesse soçobrado devido a uma acumulação excessiva de capital!... Para nós, comunistas combativos, é um grande alívio sabermos que a real derrocada do capitalismo não está vinculada ao mecanismo causal com tanto alarido apregoado pelo senhor Grossmann..." (ibidem, p. 62 s., itálico de Varga). E assim Varga, aliviado, a escassos três anos da tomada do poder pelos nacional-socialistas, regozija-se com a expectativa da "derrocada do capitalismo" à escala planetária "... muito antes de ser possível ocorrer em todo o mundo uma ‘acumulação excessiva’ de capital" (ibidem, p. 63).

Da perspectiva da actualidade, é mais que óbvio o grandioso acto falhado desta argumentação: o que Varga gostaria de entender como "derrocada do capitalismo" na Rússia, à semelhança aliás da maioria dos seus contemporâneos, era na realidade uma "modernização atrasada", uma implementação socio-histórica do sistema do trabalho abstracto sob a batuta do comunismo de Estado, numa zona subdesenvolvida em termos capitalistas da periferia do mercado mundial; ou seja, um regime historicamente não simultâneo de acumulação primitiva, que entrou ele próprio em colapso setenta anos mais tarde nas condições da 3ª revolução industrial. Mas a argumentação de Varga não apenas é absolutamente inconsequente em termos históricos e economico-políticos, no sentido do limite da socialização capitalista com base no trabalho abstracto e na respectiva forma do valor. Ao mesmo tempo, tal como no caso de Bukharine, ela lança involuntariamente uma luz crua sobre a estrutura-sujeito-objecto da modernidade, ligada ao problema da crise e do colapso, que apenas se consegue resolver sempre de forma paradoxal na subjectividade do político - e que, por isso mesmo, provoca os acessos de raiva contra o "determinismo político" das teorias do colapso.

Não admira que, tal como a argumentação do social-democrata Otto Bauer e a do comunista Nicolai Bukharine contra o "determinismo económico" de Rosa Luxemburgo são quase idênticas, o mesmo também se aplique às argumentações correspondentes do comunista Eugen Varga e do social-democrata Alfred Braunthal contra Henryk Grossmann, ainda que Braunthal tente aqui também ajustar contas com os comunistas: "No entanto, os comunistas e os adeptos da teoria do colapso não só são alheios ou mesmo avessos à realidade, pelo facto de as suas teorias não brotarem da realidade viva, mas também negligenciam os dados da realidade, na medida em que fecham os olhos perante as forças transformadoras da sociedade, que já hoje operam de facto. Se levarmos estas forças em linha de conta e nos apercebermos da importância das crescentes tendências organizativas da economia, da crescente influência do operariado e da pressão crescente por este exercida no sentido da democratização da economia, com vista à transformação da sociedade de capitalista em socialista, torna-se evidente que o operariado não tem de esperar em soturna resignação por um futuro longínquo, em que, após um horrendo período de transição repleto de penúria e miséria, as tendências de colapso do capitalismo se imponham de forma automática, mas este conhecimento incita o operariado a mobilizar todas as suas forças para impor, não o colapso do capitalismo, mas sim a sua transformação em um sistema de sociedade socialista" (Braunthal, ibidem, p. 304).

Não se consegue evitar um arrepio face a semelhante ingenuidade imediatamente nas vésperas da crise económica mundial, da barbárie nacional-socialista e da subsequente segunda guerra mundial. No entanto, ao mesmo tempo também se torna claro como é reduzida a diferença entre a reforma e a revolução na rejeição da teoria do colapso quanto ao problema do sujeito. No fundo tudo se resume à não simultaneidade histórica, à diferença entre a mesma interrogação por resolver, uma vez nas condições de um capitalismo ocidental já desenvolvido, e outra nas de uma sociedade periférica de "modernização atrasada", ainda não desenvolvida em termos capitalistas. Quer seja o operariado (ocidental) que deva exercer uma "pressão crescente no sentido da democratização da economia", ou se queira que a revolução proletária produza o suposto "colapso do capitalismo" sob a forma de uma ditadura comunista estatal do trabalho abstracto: a estrutura-sujeito-objecto e a sua aparente resolução no sentido da subjectividade política e contra o "determinismo económico" é a mesma.

Talvez se torne mais nítido que aqui espreita um problema que está por resolver, e que não tem solução no âmbito da socialização do valor, se também considerarmos a posição dos comunistas de esquerda ou dos conselhos, que, face aos sociais-democratas e aos comunistas de partido, apenas agudiza e radicaliza essa aparente resolução em relações de vontade subjectiva. Na sua polémica contra Grossmann, Pannekoek exaspera-se: "Para ele, o capitalismo é um sistema mecânico, em que os seres humanos intervêm como pessoas da economia, capitalistas, compradores, vendedores, assalariados etc., mas que de resto têm de sofrer de forma passiva o que o mecanismo lhes impõe por força da sua estrutura interna... (O) mecanismo determina as dimensões económicas, ao passo que os seres humanos que agem e lutam se encontram fora dessa conexão" (Pannekoek, ibidem, p. 20).

Eis-nos perante uma cantiga que teve de se nos tornar familiar; pois tem sido periodicamente tocada até hoje, nos debates da esquerda radical. Pannekoek abstrai por completo da forma social da consciência e mesmo da vontade. Quer atribuir às "pessoas que lutam e agem", independentemente da tematização crítica desta forma (a forma do valor) e da sua substância (o trabalho), um potencial de vontade transcendente, ou seja, atribuir, num acesso de falsa imediatez, ao ser-assim [Sosein] dos sujeitos constituídos de modo capitalista, tal e qual eles são e agem, algo que estes apenas podem alcançar pela mediação de uma crítica radical desta forma. Todo o "lutar e agir" permanece sob a égide de uma falsa objectividade, enquanto não tiver passado pela crítica da forma e da substância do trabalho abstracto. E, se isso não acontecer, as pessoas sofrerão através do seu próprio "lutar e agir" exactamente "o que o mecanismo lhes impõe por força da sua estrutura interna" - precisamente porque não se encontram "de fora dessa conexão".

Essa conexão permanece (não só) para Pannekoek um bicho-de-sete-cabeças, e assim ele vai dar exactamente ao contrário do que pretende, nomeadamente, e tal como Bukharine, à objectividade do sujeito e à determinação da própria vontade: "O colapso do capitalismo, em Marx, depende de facto da vontade da classe operária; mas essa vontade não é arbitrária, não é livre, mas é ela própria totalmente determinada (!) pelo desenvolvimento económico. As contradições da economia capitalista... determinam a vontade do proletariado sempre de novo no sentido da revolução. O socialismo não vem por o capitalismo entrar em colapso económico e assim os humanos, operários e outros, obrigados pela necessidade, criarem uma organização nova. Pelo contrário, o capitalismo vem abaixo porque, tal como vive e viceja, se torna cada vez mais insuportável para os operários, instigando-os à luta, sempre de novo, até neles crescer a vontade e a força para derrubar o domínio do capital e edificar uma organização nova" (ibidem, p. 21 s.).

Pannekoek nem sequer se apercebe que é indiferente se a vontade da classe operária "totalmente determinada pelo desenvolvimento económico" leva o capitalismo subjectivamente ao "colapso", ou se o capitalismo se desmorona por motivos a ele intrínsecos e assim "obriga" a classe operária de forma objectiva a "criar uma organização nova". Sem querer, ele ilustra claramente a permutabilidade do sujeito e do objecto na estrutura fetichista da reprodução, o que até acaba por ser elevado a honras de metafísica da história: "Para Marx, toda a necessidade social impõe-se por intermédio dos seres humanos (!); tal significa que o pensar, o querer e o agir humanos, embora pareçam discricionários à própria consciência - são totalmente (!) determinados pelos efeitos do meio; e é apenas pela totalidade destas acções humanas, determinadas no seu essencial por forças sociais, que se impõe uma regularidade no desenvolvimento social... A acumulação do capital, as crises, a miséria crescente, a revolução proletária, a apropriação do domínio por parte da classe operária, constituem juntas uma unidade indissolúvel que actua como lei natural (!), o colapso do capitalismo" (ibidem, p. 19).

É deveras grotesco: a determinação subjectiva apresenta-se imediatamente como objectiva, sem que seja reflectido o contexto de mediação; assim, a vontade emancipatória aparece, ela própria, como parte integrante precisamente da mesma pseudo-"lei natural", que a bem dizer constitui o escândalo da falsa objectivação. O que aqui se manifesta é uma conceptualidade demasiado rudimentar da própria relação de capital, a que faltam os momentos decisivos da crítica da forma de fetiche e da substância de trabalho. Já manda saudades o estruturalismo de um Althusser, para o qual até a revolução será um "processo sem sujeito" - embora Pannekoek aparentemente se situe no outro extremo da escala-sujeito-objecto do radicalismo de esquerda marxista. O preço por a classe operária se manter como sujeito histórico e não deixar os seus louros pelas mãos do "determinismo económico" do colapso objectivo consiste em "a classe", ela mesma, apenas poder actuar como executora de supostas "leis naturais" da sociedade - o que constitui um sinal inequívoco de que esta construção, na realidade, se mantém presa no círculo sob a égide das categorias capitalistas, e de que esta ideia de uma "revolução proletária" mais não é que uma ideologia de desenvolvimento do trabalho abstracto, e representa um prolongamento do sistema da valorização, em que o "trabalho sem capital" poderia voltar a ser uma simples relação de capital.

Como é evidente, o próprio Grossmann não ficou alheio à metacrítica ideológica da sua obra, fundamentada no problema do sujeito, para lá das definições imanentes da teoria da crise. Ainda no exílio nos U S América, mais de uma década após a interrupção do debate, ele tentava indirectamente defender-se da acusação do "determinismo económico", asseverando, à semelhança de Rosa Luxemburgo, que a tendência objectiva para o colapso de modo nenhum tornava supérfluo o agir subjectivo emancipatório. Segundo Grossmann, um "momento da teoria geral de Marx" essencial consistiria "na doutrina de que nenhum sistema económico, por muito acossado que seja, entra em colapso por sua iniciativa própria; tem de ser ‘derrubado’. A análise teórica das tendências objectivas de desenvolvimento que levam ao colapso do sistema serve para descortinar os ‘elos fracos’, a serem utilizados como uma espécie de barómetro, que indica quando o sistema se torna maduro para uma mudança fundamental. E mesmo quando esse ponto é alcançado, a revolução é levada a cabo tão-só pelo agir activo dos factores subjectivos... É graças a tal agir que as tendências objectivas podem ser realizadas" (Grossmann 1971/1943, p. 210 ss).

Assim sendo, Grossmann agora já chegou ao mesmo ponto que Pannekoek; a objectividade (negativa, falsa) é subjectivada, ao passo que inversamente o agir subjectivo é objectivado ("realização das tendências objectivas"), o próprio sujeito já só é um "factor", a confusão é total. É óbvio que Grossmann nunca se tinha debruçado sobre este meta-nível, onde agora a posteriori ainda se espalha ao comprido, depois de há muito se ter tornado claro que o seu esforço de análise no plano das categorias do valor e da teoria da crise a elas ligada não podia chegar a lado nenhum.

Já só faltava um pequeno passo para reduzir este dilema por completo à pura subjectividade das relações de vontade e declarar as categorias da crítica da economia política de Marx na prática completamente irrelevantes. A relação de capital, como relação de vontades exterior, já não é então mais que "vontade contra vontade" (ainda assim novamente expressa de forma objectivada como "classe contra classe", visto que, como é sabido, a categoria classe é por sua vez sistemicamente constituída, e assim desde logo faz parte da objectividade). Para ser mais exacto: a objectivação incompreendida da categoria classe é reduzida a uma simples questão de vontade, de modo que a objectividade do fetiche capitalista aparentemente se resolva numa simples "relação de forças" de determinações de vontades contraditórias.

Foi Karl Korsch quem, na discussão da meta-problemática da relação-sujeito-objecto no âmbito do debate sobre a crise e o colapso, ajudou a preparar esta viragem. Para ele, qualquer teoria do colapso representa uma "deformação objectivista": "Semelhante teoria não me parece apropriada para produzir essa plena seriedade do agir auto-responsável da classe operária que luta pelos seus objectivos próprios, necessária tanto à guerra de classe dos operários como a qualquer outra guerra comum" (Korsch, citado segundo: Marramao 1977, p. 18). Como constata Marramao, Korsch vai até ao ponto de encarar "a representação dialéctica do Marx maduro como uma mera alegoria destinada a excitar a vontade de luta e o espírito revolucionário do proletariado" (Marramao 1977, p. 21, itálico de Marramao).

Giacomo Marramao, que no contexto do marxismo da nova esquerda dos anos setenta se ocupou do problema, designa com razão esse pensamento de Korsch como "redução pragmática do momento dialectico-morfológico da crítica da economia política" (ibidem, p. 42). Como consequência última deste pensamento, as categorias do trabalho abstracto, valor, mercadoria, preço, mais-valia, composição orgânica, queda tendencial da taxa de lucro etc., ou seja, as balizas teóricas da reprodução capitalista assim como da sua crise, têm de se reduzir a meras "alegorias" de determinações de vontade das "classes", pensadas como sujeitos de vontade sem pressupostos. O plano da constituição do fetiche e do "sujeito automático", que de qualquer modo nunca tinha sido entendido, agora é abolido de vez, as objectivações reais convertem-se em meras vestes de relações de vontade puramente subjectivas.

É verdade que Korsch também se pronuncia contra um mero subjectivismo da acção directa não mediada etc., mas isso refere-se unicamente aos planos da mediação no âmbito das supostas puras relações de vontade, e não à objectividade negativa da relação de fetiche e da crise como limite objectivo: "Esta postura declara toda a questão da necessidade ou evitabilidade objectivas das crises capitalistas uma questão que nessa generalidade não faz sentido no âmbito de uma teoria da revolução prática do proletariado... Antes ela crê que, através de uma investigação empírica cada vez mais exacta e pormenorizada do presente modo de produção capitalista e das suas nítidas tendências de desenvolvimento futuro, também podem ser feitos certos prognósticos que, embora sempre muito limitados, sempre chegam para as necessidades da acção prática" (Korsch, ibidem, p. 18 s., itálico de Korsch).

Aqui se mostra a consequência desse "reducionismo pragmático" das categorias capitalistas forma e substância: o movimento histórico já não se apresenta como movimento dessas mesmas categorias, que só seria possível entender com base na teoria correspondente, mas já apenas se manifesta na redução a relações de vontade, ou seja, reduzido ao "plano empírico" e à sua "investigação", sendo que esta empiria é concebida de modo imediato como sendo referente a relações de força entre determinações de vontades antagónicas. Tinha nascido a famigerada análise das classes: acabou-se qualquer investigação e debate sobre o movimento categorial e o seu nexo interno, findou o debate sobre as teorias da crise e do colapso, sobre a queda tendencial da taxa de lucro, o problema da realização e outros que tais - todos eles despromovidos a "questões que nesta generalidade não fazem sentido". Em vez disso já só permanece a análise empírica no sentido das estruturas das classes e das suas alterações, que assim sendo também incluem as alterações nas relações de vontade. Ou seja, precisamente aquilo que o operaismo, com os seus teoremas da recomposição da classe operária, havia inscrever na sua agenda como um reducionista programa de investigação permanente.

Como é óbvio, com este tipo de expedientes não se consegue escapar à relação-sujeito-objecto da constituição do fetiche moderno. Apenas se prolonga o dilema que já surge em Pannekoek e que radica no curto entendimento do marxismo do movimento operário em geral: quanto mais subjectivo, mais objectivo; quanto mais a relação de fetiche é concebida como uma pura relação de vontade de sujeitos de vontade pensados sem pressupostos ("classes"), cujos reais pressupostos permanecem na sombra, tanto mais a objectividade falsa, negativa, acaba por se reintroduzir pela porta das trazeiras, e os teóricos da imediatez, que já nem sequer reflectem os seus próprios pressupostos, vêem-se constrangidos a coisificar por completo a estrutura e a consciência do seu esplêndido "sujeito de vontade proletário" e "investigá-lo" como um objecto natural objectivo, com o que evidentemente desmentem da forma mais embaraçosa a sua ênfase no "agir auto-responsável da classe proletária em luta pelos seus próprios objectivos".

Tal como a história secreta do debate do marxismo tradicional sobre a crise e o colapso consistiu, para lá do plano reduzido da economia política, na desagradável tematização dessa pouco esclarecida estrutura-sujeito-objecto da socialização do valor moderna, assim o programa secreto da sua resolução consistiu na redução das categorias objectivadas do capital a puras relações de vontade, que de seguida podiam ser observadas e investigadas sob aspectos diversos. A história do pós-guerra da nova esquerda foi, toda ela, permeada por este paradigma. Foi simplesmente adoptado este resultado do debate do colapso, não sujeito à mínima análise crítica e de todo irreflectido; e foi precisamente por isso que não só o conceito de colapso, como palavra não grata, se transformou em um mero fantasma, mas também o caminho para um desenvolvimento ulterior da crítica da ontologia do trabalho permaneceu obstruído, e os bastante tematizados conceitos de coisificação ou de alienação não passaram de uma superficial formulação socio-filosófica.

O plano da constituição social, o problema da constituição de fetiche e do "sujeito automático", teve de continuar assim não elaborado e foi mesmo expressamente rejeitado. Apesar das aparências exteriores, tal tendência não é contrariada nem mesmo pela corrente do debate do estruturalismo de Althusser. Althusser deixou sobrar o "sujeito proletário" num estado perfeitamente irreflectido, mas despido da sua ênfase e reduzido a um "executor" de processos estruturais. Porém, como foi assinalado, já Pannekoek tinha chegado a esse ponto, que no fundo também foi o pressuposto implícito ou explícito de todo o "materialismo histórico". O pólo oposto operaista apenas constituiu o reverso da mesma medalha. Não é por acaso que tanto Luis Althusser como Toni Negri rejeitaram expressamente tanto o conceito de fetiche como toda a argumentação de Marx sobre ele edificada. Deste modo, juntamente com o problema do limite interno objectivo da valorização, também a forma social do sujeito e a sua substância (do trabalho) foram definitivamente apagadas como possíveis objectos da reflexão e da crítica radical.

A crise e a crítica, a ilusão política e a relação de dissociação sexual

A subjectivação reducionista das categorias foi politico-economicamente justificada com o desenvolvimento do próprio capitalismo, até um capitalismo "organizado" (Hilferding). Os problemas da valorização, na realidade resultantes de um processo secular de dessubstancialização do próprio valor, que tinham potenciado as intervenções do Estado desde o fim do século XIX (com os posteriores impulsos da economia de guerra da época das guerras mundiais e mais tarde da regulação fordista na segunda metade do século XX), apareciam a bem dizer como "remoção da lei do valor", através do pretenso comando directo da política e da gestão dos conglomerados empresariais sobre a reprodução capitalista. Esta representação assombra todos os domínios dos padrões interpretativos entretanto classificados com o rótulo de "marxismo ocidental" e que arvoram a pretensão de ir além do "economismo" do marxismo tradicional - quando na realidade representam apenas o reverso subjectivo-ideológico da mesma medalha.

Com isto se prolonga e potencia a ilusão política, tal e qual ela tinha caracterizado o marxismo do antigo movimento operário desde o início. A "luta pelo reconhecimento", no terreno do trabalho abstracto e portanto da socialização do valor, na realidade só podia ser conduzida de forma política precisamente devido à sua limitação, pois a política não é senão a "esfera de tratamento" secundária dos problemas sociais continuamente causados pela relação de capital. Esta esfera, de acordo com o seu conceito, pressupõe a valorização do valor como positiva, sendo considerada uma componente imanente do valor como forma social. Qualquer contraposição de economia e política que se fique por esta diferença e suponha as duas esferas como mutuamente exteriores, sem conseguir compreender a sua conexão abrangente [übergreifenden Zusammenhang] na relação de valor e na substância de trabalho, permanece decisivamente reduzida e desemboca em alguma variante da ilusão política. A política, de acordo com o seu conceito, está relacionada com o Estado, mas o Estado como categoria e como aparelho concreto representa o mecanismo de tratamento político do capitalismo, que per se não pode conduzir para além do fim em si da valorização do valor, não passando, pelo contrário, de uma simples função desta coacção (as fricções no decurso do processo de tratamento político podem involuntariamente libertar potenciais da crítica, mas isto nada muda no estado das coisas estrutural).

O entendimento do carácter comprometido com o sistema do Estado e da política pressupõe no entanto o entendimento da falsa objectivação das categorias capitalistas em geral e do carácter de fim em si do "sujeito automático". Daqui resulta uma crítica do Estado completamente diferente da do marxismo tradicional. O modo de falar do Estado como "comité de gestão de negócios da burguesia", tal como é usado ocasionalmente também por Marx e como se consolidou finalmente no conceito de "Estado de classe", é de muito pouco alcance e é a expressão de uma subjectivação sociologística. As classes não determinadas nos seus pressupostos, mas na realidade categorias derivadas da relação de fetiche que são tomadas por sujeitos sem pressupostos, parecem então subsumir todas as categorias da reprodução do capital sob esta subjectividade sociológica, como sua última base. Precisamente por isso, porém, as categorias trabalho, valor, Estado, política etc., são ontologizadas, pois só são definidas como objectos da crítica pelos seus atributos, como "trabalho (transhistórico) explorado pelo capital", "valor apropriado pelos dominantes (mais valia)", "Estado da burguesia" etc., de modo que se gostaria de imaginar um "trabalho livre", um "valor apropriado com autodeterminação, isto é, justamente repartido", um "Estado proletário" e, nota bene, uma "política emancipatória".

A falsa subjectivação já estava na hipóstase do conceito de classe sociologicamente reduzido, como pretenso ponto de partida de toda a reflexão (enquanto Marx começa com a forma da célula capitalista valor, com a determinação da reprodução pela forma fetichista, e não com a classe sociológica). No marxismo tradicional, ainda assim, as categorias da crítica da economia política desenvolvidas por Marx, que nada mais exprimem que a objectivação negativa da constituição de fetiche, do "sujeito automático", levaram por algum tempo uma vida própria fantasmática e produziram aqueles debates sobre desenvolvimento capitalista, tendências de crise e colapso, que permaneciam sistematicamente não mediados com a supostamente "autêntica" problemática das "classes" e da sua "política"; daí também o desembocar em e o fracassar na não resolvida questão abstracta da estrutura-sujeito-objecto.

Na medida em que o movimento operário, na sua "luta pelo reconhecimento" como sujeito do trabalho, do direito e da cidadania estatal, que necessariamente assumia a forma política, foi bem sucedido, transformou-se ele próprio em sujeito burguês, na "jaula de ferro" (Max Weber) da socialização do valor. O seu êxito foi simultaneamente um auto-acorrentamento e uma auto-condenação à forma fetiche, e a política permaneceu o veículo desse encantamento. A ascensão do movimento operário, o seu sucesso na "luta pelo reconhecimento" (um sucesso escrito a sangue, pois encontrou a sua realização na primeira guerra mundial - o pleno reconhecimento veio junto com o sacrifício de sangue no altar da nação burguesa) e a ascensão da intervenção do Estado caminharam de mãos dadas. O que seria mais óbvio do que concluir agora a subjectivação das categorias, entender definitivamente mal a política como forma de emancipação e justificar isto com o próprio desenvolvimento do capital?

A teoria do "capitalismo organizado", da pretensa "suplantação da lei do valor" e do "comando político" sobre as categorias reais do trabalho abstracto e do valor prosseguiu apenas, por um lado, a clássica tendência da social-democracia a "ir-se chegando paulatinamente" e sem quebra ao "socialismo" de uma auto-trituração autodeterminada numa sociedade fabril organizada ou "fábrica social total"; por outro lado, levou até ao fim a subjectivação e tornou-se assim susceptível de também dar lugar a interpretações de esquerda radical, que no entanto permaneciam enraizadas na mesma lógica. Isto aplica-se tanto à teoria de Horkheimer e Adorno do "Estado autoritário", que supostamente actuaria para além da lei do valor, como às posteriores posições operaistas. Em cada caso, quer o pretenso regime de comando político sobre o trabalho abstracto/forma do valor se tenha apresentado como positivo (social-democracia), quer (não em último lugar sob a impressão do nacional-socialismo) tenha sido entendido como "fatalidade" (Horkheimer/Adorno), ou tenha figurado como pura "determinação da vontade" do inimigo de classe, que devia desafiar e mobilizar sempre de novo a "contra-vontade" do proletariado (Negri-Operaismo) - perante este pano de fundo, quando tudo se dissolveu na "política", já não é pensável um limite interno objectivo. Com isto, no entanto, a aparente "suplantação" das teorias do colapso tornou-se idêntica à ilusão política acabada, com a inflexão do pensamento da emancipação para a esfera da função política da modernidade capitalista.

É com razão que Giacomo Marramao chama a atenção nos anos 70 para que "são precisamente os teóricos do austromarxismo que abrem no marxismo europeu aquela ‘saison da subjectividade’ que consiste numa leitura renovada, activista, das obras de Marx, através do filtro de determinados temas do neo-kantismo" (Marramao, ob. cit., 26). De modo nenhum por acaso, os activistas radicais de esquerda do operaismo e correntes semelhantes dos anos 70 (e em parte até hoje) invocam nas suas análises teóricas precisamente do teorema de Hilferding do "capitalismo organizado". Esta orientação geral tinha por consequência, porém, como Marramao constata de seguida, "tanto junto dos austromarxistas neo-kantistas, como também junto da ala maioritária do comunismo de esquerda, uma restrição gnoseológica daquele domínio que em Marx é determinado pelas relações sociais de produção. Ao postulado do momento subjectivo (etico-universalista) corresponde a análise sociológico-empírica do "múltiplo ou do real". Em vez de tornar reconhecíveis as leis que determinam as tendências do modo de produção, a análise económica perde-se assim num exercício de micro-sociologia" (ob. cit. 26, itálico de Marramao).

Este entendimento crítico ficou porém por desenvolver, um simples elemento de pista, e não pôde impedir que o mainstream da nova esquerda se tivesse movido nas variantes da falsa subjectivação de Negri. O que se encontrava também na própria argumentação de Marramao, uma vez que esta não chegou ao problema da constituição-fetiche, nem à solução do dilema-sujeito-objecto, mas ela própria já partia a priori da redução desconceptualizada à política; o objectivo do seu ensaio, esclarece ele logo no começo, estava "na perspectiva de uma complexa nova definição de uma política adequada à situação dos países tardo-capitalistas" (ob. cit., 13, itálico de Marramao). Isto lembra fatalmente Christoph Deutschmann, no qual a aproximação ao problema do limite objectivo enquanto dessubstancialização também se transforma imediatamente no paradigma do tratamento político; o que em Deutschmann aparece no plano das categorias do capital, como "política económica", transforma-se em Marramao na abstracção vazia "da política" em geral, no metaplano do problema-sujeito-objecto.

Por aqui se ficou até hoje. Tanto o pós-operaísmo de Negri, que de há algum tempo a esta parte tem feito furor de novo (pelo menos nos suplementos culturais), como em termos gerais a esquerda pós-moderna, mas também posições antes de mais do marxismo tradicional da "luta de classes", continuam apegados a um conceito tão difuso quanto inflacionário de "política", degradado à frase vazia. Nem sequer sabem de que história são o resultado. A política é equiparada de qualquer maneira com intervenção em geral, passando ao largo das categorias, que mais do que nunca estão degradadas a um mero ruído de fundo. O que em Pannekoek ainda foi pré-pensado com pouca clareza, concluiu-se até à estupidificação categorial da esquerda. Invocam-se os sujeitos ou "o sujeito" puro e simples, a forma não é nada e a vontade, tudo. Indiferente ao trabalho abstracto, à substância do valor e à forma do valor, ao desenvolvimento e à crise, pretende-se mobilizar nos seres humanos em falsa imediatez tudo aquilo que de algum modo "não se encaixa" na valorização do valor, como se isso fosse possível sem a mediação da crítica da forma do sujeito e da sua substância social. "A capacidade de intervenção" é tudo, e precisamente por isso nunca dá nada. Nos meios de esquerda, que são determinados por este conceito político inflacionário, vazio e desvanecido, a ideia de um limite interno objectivo já só provoca uma espécie de grunhidos e, mês sim, mês não, celebra-se a despedida definitiva dos "teóricos do colapso". E esses grunhidos tanto mais são rosnados e escarrados quanto mais penosa e regularmente a "intervenção política" se ridiculariza até ao tutano.

É um esforço inglório querer apresentar a estes meios de cena, que não são senão os últimos moicanos da história marxista, uma reformulação da reflexão categorial, enquanto eles próprios não consigam dar passos nessa direcção, encarando de frente desde logo o seu próprio comportamento de lemmings do intervencionismo político. No entanto, a reflexão categorial também pode e deve ser desenvolvida independentemente da capacidade de recepção destes ilusionistas políticos do social em estado terminal. Retomemos a discussão no ponto em que o debate histórico colapsou na subjectivação das categorias. Em que sentido é que o problema se coloca de novo, se a ontologia do trabalho marxista for criticada e superada, o que por seu lado também conduzirá a uma nova definição do sistema categorial do trabalho abstracto?

Apesar da sua redução à sociologia das classes e à política, o marxismo tradicional pôde viver com a objectivação das categorias por as ter positivado e transformado em objectos ontológicos de um tratamento político reduzido aos atributos, cujo resultado acabaria por ser a subjectivação categorial total; o movens desta subjectivação era constituído pela discussão em torno da teoria do colapso, que conduziu à paralisia na insolúvel aporia-sujeito-objecto. O regresso às categorias após a passagem pela crítica radical da ontologia do trabalho já não pode conceber positivamente a conexão categorial do trabalho abstracto, mas apenas negativamente (como se explicitou na primeira parte deste estudo). Mas com isso também se coloca de modo diferente o problema-sujeito-objecto no contexto da questão da crise e do colapso. O sujeito e o objecto já não podem ser relacionados de um modo simplista como unidade positiva, mas têm que ser percebidos primeiro no seu rompimento [Zerrissenheit].

Logicamente a questão da crise e do colapso está então sediada puramente no plano da objectivação falsa, negativa, e do movimento categorial autonomizado da dinâmica capitalista. A questão da crise e do colapso deve ser portanto estritamente separada da questão da emancipação. Ambas se separam em primeiro lugar conceptual e realmente, tal como a sociedade-fetiche moderna se constitui em geral em polaridades autonomizadas opostas. A emancipação só pode ser consciente; crise e colapso, pelo contrário, de acordo com o seu conceito, só podem acontecer num processo inconsciente de desenvolvimentos objectivados e nada têm a ver imediatamente com o agir consciente. Daí que o capitalismo pode colapsar sem que os seres humanos se emancipem. O resultado seria o auto-aniquilamento da humanidade, ou a "queda na barbárie", como Marx assinalou metaforicamente esta alternativa. O conceito é problemático e de proveniência eurocêntrica, mas é o mais atreito a assinalar uma possibilidade, última, de objectivação negativa. Assim, de facto, pode-se ver na televisão as "catástrofes de natureza social", até elas atingirem o próprio, mas não a própria emancipação do contexto que provoca essas catástrofes. Inversamente, os seres humanos podem em princípio emancipar-se sem que o capitalismo colapse. Este colapso não é nenhuma pré-condição social indispensável da emancipação, mas pode, na sua cega objectividade, tornar-se na condição de ambiente social do pensar e do agir emancipatórios, se a transformação emancipatória se fizer esperar por muito tempo e for dada ao capitalismo a oportunidade de desenvolver completamente as suas contradições internas. Crítica e crise são assim botas de dois pares, e quem calçar uma bota de cada par e quiser correr nesta falsa unidade tem que cair sobre os próprios pés.

Nesta perspectiva torna-se completamente impossível uma afirmação como a de Paul Mattick, que junta de modo simplista ambos os polos e abstrai do seu rompimento [Zerrissenheit] a favor de um monismo não mediado de sujeito e objecto: "O conhecimento teórico de que o sistema capitalista, por causa das contradições que o impulsionam, só pode desembocar no colapso não obriga por isso à opinião de que o colapso real seja um processo automático, independente dos seres humanos" (Mattick, cit. em Marramao, ob. cit., pag 25, itálico de Mattick). A fórmula desamparada do colapso "real", como se houvesse um autêntico e outro não autêntico, remete apenas para o facto de que não se chegou ao fundo do problema. Tanto a tendência secular para o colapso, enquanto dessubstancialização ou desvalorização do valor, como também um processo real de colapso, no fim da capacidade de desenvolvimento capitalista, são de facto como legalidade sistémica um "processo automático", enquanto os seres humanos agirem conforme a determinação da forma capitalista; mas daí não resulta jamais "automaticamente" uma outra sociedade, emancipada.

Até este ponto já o problema foi discutido noutro lugar (vide Kurz 2003, 226 sg.). Mas com isto não se esgotou ainda a colocação da questão, mesmo se tal contribuiu ao menos para desfazer a distorção do problema-sujeito-objecto no contexto da problemática da crise e do colapso. Poder-se-ia contudo objectar que, com a tónica na estrita objectividade da tendência de crise e colapso, por contraposição à crítica e à emancipação, o problema acabou por ser de novo objectivado, uma vez que o que aqui está em questão não é a objectividade de processos da "primeira natureza" efectiva, mas a objectividade de uma pseudo-natureza social, que em última instância tem de ser mediada por acções humanas. Uma vez que nem pode ser de outra maneira, a questão a colocar de seguida é evidentemente a da mediação "subjectiva" da objectividade social, em vez de subjectivar esta objectividade de modo não mediado (como fazem, em grande medida, o marxismo da sociologia das classes e particularmente o comunismo de esquerda/operaismo), ou entendê-la mal como uma objectividade no sentido das ciências naturais (como a doutrina da economia política). No fundo trata-se do mesmo problema que nas ciências sociais burguesas desde sempre se constituiu como a oposição entre a teoria da estrutura e a teoria da acção.

Uma vez que em última instância todas as manifestações, categorias e processos sociais não são produzidos nem conduzidos por nenhuma "coisa do exterior", mas remontam a acções e decisões humanas, então não há realmente nenhum determinismo em geral, pelo menos absoluto. Tudo o que aconteceu e acontece, incluindo a objectivação da "segunda natureza", é determinado por acções e decisões. A pura objectividade de um processo histórico e a filosofia da história positiva a construir sobre ela é sempre uma interpretação ex post, que glorifica como "necessidade" um percurso simplesmente real (em Hegel elevado a sistema e simplesmente "virado do avesso" no chamado materialismo histórico). Na realidade todos os processos históricos são sempre até um certo ponto abertos e indeterminados, enquanto não forem tomadas decisões nem executadas acções. À semelhança das explicações populares da física quântica, poder-se-ia apresentar a história como uma nuvem de probabilidade de possibilidades indeterminadas, que apenas no momento do agir se consolidam em realidade histórica.

Mas, primeiro, há acções e decisões de alcances diversos; em segundo lugar, as acções e decisões constituem uma conexão em cadeia, de modo que uma vez executadas já não podem ser revertidas. E nesta medida todas as acções encontram-se sempre ligadas aos resultados de acções anteriores e por estas condicionadas. Enquanto a sociedade humana não chegar a uma consciência própria como "associação de indivíduos livres", que sempre já correflecte as condições e as consequências da sua acção social e que, em decisão livre e consciente, decide sobre a realização das suas possibilidades, também as conexões em cadeia sempre voltam a adensar-se em padrões de acção cegos, na matrix de uma "segunda natureza" que se autonomiza face aos indivíduos e se apresenta como uma "coisa exterior".

Em termos gerais, isto poderia ser designado por constituição de fetiche, sendo que toda a História até à data foi a história das relações de fetiche. Uma semelhante matrix é o que Marx designa por modo de produção histórico e que poderia alargar-se no conceito de um modo de vida e de produção; na ciência histórica burguesa fala-se muitas vezes de culturas, no marxismo por vezes também de formações sociais. Para recorrer uma vez mais à comparação com a física, poder-se-ia também falar de um campo histórico. Trata-se aqui precisamente daquilo que no início deste estudo foi criticado como défice de percepção sistemático do pensamento pós-moderno, que vê a contingência em acção de modo quase indiferente, sem desenvolver um conceito desses campos históricos e das diferenças da respectiva matrix. O pensamento pós-moderno é não histórico, precisamente neste sentido de um entendimento da contingência meramente difuso.

Porém, uma vez constituído um tal campo, este limita a contingência, que fica reduzida às possibilidades no interior da sua matrix. Portanto na contingência historico-social temos que nos defrontar com duas distintas nuvens de probabilidade; à uma, com a nuvem de probabilidade de ordem superior da história, a partir da qual tais campos históricos ou formações se condensam, e, por outra, com uma nuvem de probabilidade secundária, a partir da qual a história interna de tal campo se desenvolve de acordo com o padrão da sua matrix específica.

Evidentemente, há que dizer desde já que esta conceptualidade, mesmo representando uma generalização, deve-se por inteiro à experiência criticamente elaborada da constituição social capitalista moderna. Para a investigação de estados anteriores e da história anterior no seu conjunto como "história de relações de fetiche", há que acrescentar apenas uma prudente pretensão heurística, mas nenhuma nova "filosofia da história" ideológica. Portanto, há que evitar os erros da filosofia do iluminismo e do materialismo histórico, os quais ambos - num caso afirmativamente, noutro com propósito crítico - ontologizaram transhistoricamente as categorias capitalistas modernas, com que o materialismo histórico revestiu a história duma lógica de desenvolvimento dinâmico, como "dialéctica de forças produtivas e relações de produção", que na realidade caracteriza apenas o capitalismo, a moderna socialização do valor.

De entre todos os campos históricos, o capitalista da modernidade é o único cuja matrix produziu a dinâmica interna de um cego processo de contradição na realização do padrão da acção e, com isso, uma objectividade de segunda natureza que pode provocar um colapso objectivo; e assim acontece ao contrário de todas as constituições pré-modernas, por exemplo dos campos históricos das sociedades agrárias, nos quais a objectividade fetichista não se configurou em nenhuma dinâmica interna deste tipo. Por isso também a sociedade capitalista é a única a ter conduzido, por força desta dinâmica destrutiva, aos limites de uma "história de relações de fetiche" e a ter sequer tornado possível o conhecimento do carácter de fetiche em geral; no entanto, de modo algum positivamente, como coroação de uma "história de progresso" necessária, mas sim de modo puramente negativo, como problema de uma dinâmica interna de colapso especificamente pertencente a este campo histórico.

Neste contexto, há que questionar agora (de novo generalizável historicamente apenas de modo limitado) o carácter diferente da nuvem de probabilidade das possibilidades de acção e de decisão. A contingência apresenta-se de modo diferente, dependendo de se nos colocamos no plano da constituição do campo histórico como tal, ou no plano da sua história interna. Não há nenhum processo de necessidade histórica, a partir do qual o capitalismo como formação histórica "tivesse de" surgir, mas uma espécie de alteração climática para a nuvem de probabilidade das possibilidades de acção, quando a contingência atingiu um estado em que um determinado campo histórico da sociedade agrária começou a decompor-se. Nesta decomposição a peste desempenhou um papel, mas mais ainda a revolução militar das armas de fogo, na chamada idade moderna primordial; a explicação detalhada destes desenvolvimentos constitui um tema próprio e não vem ao caso aqui. Mas é importante a constatação de que com isto se verificou na nuvem de probabilidade da história a possibilidade de um salto qualitativo nas condensações da acção e da decisão, da passagem para a constituição de um novo campo histórico, cuja natureza inicialmente permaneceu ainda indeterminada.

Nesta fase de transformação também teria sido possível a constituição de um novo campo completamene diferente do do capitalismo. Ou que a condensação da nuvem de probabilidade no campo capitalista tivesse parado em determinados níveis de desenvolvimento, transformando-se noutra configuração. Isto torna-se particularmente claro em três pontos históricos. As guerras camponesas dos séculos XV e XVI representaram um levantamento contra a constituição inicial da matrix capitalista, quando esta estava apenas em formação embrionária; se tivessem saído vitoriosas (a sua derrota não era de modo nenhum "necessária") então ter-se-ia constituído uma outra matrix a partir da nuvem de probabilidade; ainda que presumivelmente não uma suplantação da história das relações fetichistas, mas sempre um outro novo campo histórico, com outro padrão de acção que não o capitalista. Os movimentos sociais e revoltas do século XVIII e início do século XIX já estavam mais impregnados da matrix capitalista em formação, mas continham ainda assim a negação do trabalho abstracto; se tivessem saído vitoriosos (e a sua derrota não era absolutamente "necessária"), então a constituição capitalista teria sido parada nesse ponto e a nuvem de probabilidade teria assumido uma outra qualidade na sua condensação. O movimento operário moderno clássico do fim do século XIX, finalmente, já tinha interiorizado amplamente na prática o padrão de disciplinamento do trabalho abstracto, mas ao mesmo tempo, através da recepção da teoria de Marx, que pela primeira vez tematizou em crítica radical o conceito não só do trabalho abstracto e da forma do valor, mas também da relação de fetiche em geral, ficou cheio da possibilidade de uma ruptura consciente; bem cintilante, aliás, nos primeiros programas e intenções marxistas, que na realidade não tardaram a ser abandonados - mas também isso não era absolutamente "necessário". Também neste ponto, tivesse a constituição capitalista ainda sido parada e poderia ter começado uma transformação, que seria certamente acompanhada de violentas fricções, mas nem por isso teria sido "impossível" (ter-se-ia vencido o problema do trabalho abstracto, isto é, o movimento de transformação deveria ter-se emancipado desta matrix através do desenvolvimento da crítica, e com isso dos próprios momentos de interiorização).

Apenas porque neste ponto de ruptura a nuvem de probabilidade se condensou em decisões fácticas, de modo nenhum assentes a priori, que de cada vez resultavam a favor duma mais ampla consolidação e desenvolvimento do campo capitalista, pôde a dinâmica de contradição capitalista continuar a desenvolver a sua lógica de um movimento objectivo das categorias autónomas, com base na matrix constituída. A contingência que ainda restava cada vez numa nuvem de probabilidade de segunda ordem, numa história interna do campo capitalista, era então por sua vez determinada do ponto de vista da lógica de desenvolvimento geral; no interior deste determinismo do campo do conjunto, contudo, eram e são abertas e indeterminadas cada uma das decisões e acções realizadas. Assim, por exemplo, a constituição atrasada do Estado nacional alemão no século XIX não teria necessariamente que ser bem sucedida, cada uma das partes do posterior império alemão teria podido integrar outra estrutura de Estado, e a humanidade teria sido poupada a muita coisa (do mesmo modo também podia pelo contrário ter ocorrido já no século XIX a constituição dessa nação, com a inclusão da Áustria). Nem a vitória do nacional-socialismo, nem a consequente história de catástrofes eram forçosas ou "historicamente necessárias"; mesmo com um desenvolvimento mais aprofundado do campo capitalista, a humanidade não tinha que ter suportado incondicionalmente estes agravamentos extremos da potência para a barbárie no interior do capitalismo.

Aqui, porém, não se trata da contingência da história no interior do capitalismo, mas da questão da lógica de colapso que se refere inequivocamente ao campo capitalista como tal. Se a dinâmica de contradição do capitalismo contém em si uma tendência de colapso, então ela é o resultado dessa objectivação do campo com tais qualidades. Também a constituição desta objectivação das categorias e da sua cega dinâmica de colapso, como processo logicamente determinado, é de facto determinada pelas acções humanas e levada a cabo pelas acções humanas; mas não pelas acções e sua intencionalidade imediatamente, mas pelo facto de estas mesmas acções, num processo incontrolado, terem feito primeiro uma matrix, um padrão de acção, que se objectivou nas categorias sociais e deu lugar a uma dinâmica de contradição autonomizada; e na medida em que o posterior agir se realiza nestas categorias e de acordo com esta matrix, os seres humanos, sem disso estarem conscientes e sem sobre isso terem controle, põem eles próprios em movimento o motor categorial da autocontradição e do programa de colapso, até serem atingidos pelos respectivos resultados. O "sujeito automático" não é outra coisa senão o auto-movimento das categorias reais capitalistas, que foram criadas pelos seres humanos inconscientemente e que se movimentam de modo autonomizado precisamente porque os indivíduos realizam a sua vida nessas categorias, já não querem imaginar outra coisa para si e buscam a todo o custo a sua felicidade em corresponderem às exigências produzidas por esta matrix.

A tendência de colapso está portanto objectivamente determinada pelo facto de os seres humanos organizarem subjectivamente o seu agir de acordo com a matrix capitalista instituída, ou seja, executarem e executarem cada vez mais o sistema do trabalho abstracto e da sua forma valor, até por assim dizer se enforcarem a si mesmos nele. Ou seja, quanto mais os sujeitos agem, lutam e se movem, sem pôr em questão a matrix deste agir, lutar etc., o sistema do trabalho abstracto, ou sem sequer se aperceberem dele como problema, tanto mais põem eles mesmos em andamento o mecanismo do relógio do "colapso automático". Eles não o querem, não o sabem, mas fazem-no, simplesmente porque não imobilizam a máquina social do "sujeito automático" produzida na longa cadeia histórica de acções e cada vez mais dessenvolvida na sua dinâmica de contradição. Quanto mais subjectivo, mais objectivo - este enigma da moderna estrutura-sujeito-objecto deixa-se resolver com base nas conceptualidades da constituição de fetiche e do campo histórico ou da sua matrix.

A consequência do conhecimento da tendência de colapso automático é por isso exactamente o contrário de fatalismo, nomeadamente uma qualidade completamente nova da própria crítica radical. A falsa subjectivação das categorias, o insistir na pretensamente livre competência de acção do sujeito, geralmente contingente nas categorias, leva assim mais seguramente ao automatismo objectivo do colapso, porque a própria matrix do agir é ignorada e fica por criticar. Inversamente, o conhecimento do carácter deste automatismo do colapso leva à crítica das categorias em si e da matrix que lhes subjaz, portanto a uma radicalidade que vai mais fundo, que é necessária para extravasar o campo histórico.

Porém, à matrix pertencem não só a forma e a substância do trabalho abstracto, mas também o portador da acção desta conexão sistémica cega, que põe em movimento o "sujeito automático" através do seu próprio padrão de acção pré-estruturado - o sujeito. Este sujeito tão pouco pode ser determinado como transhistórico-ontológico quanto o próprio trabalho abstracto. O sujeito representa muito mais o moderno portador da acção do trabalho abstracto e das suas funções derivadas - ele não é senão a forma social do agir nos próprios indivíduos: forma da percepção, forma do pensamento, forma do relacionamento, forma da actividade (cf. sobre isto detalhadamente Kurz 2004). Portanto não há que perguntar como se perfila a nova qualidade da crítica através do sujeito, mas esta nova qualidade implica a crítica do próprio sujeito: a crítica da "forma sujeito", que não é outra coisa senão a moderna forma capitalista do agir. Isto talvez seja difícil de conceber porque estamos habituados a pensar as acções e as decisões em geral apenas na categoria do sujeito. Mas é precisamente nisso que consiste a fixação na matrix capitalista. Crítica do sujeito não significa baixar os braços e entregar-se ao fatalismo, mas antes pelo contrário, uma nova qualidade da própria luta, que conscientemente se coloca o objectivo da ruptura com a matrix capitalista.

Decisivo para uma crítica radical da "forma sujeito" é também o conhecimento da estrutura deste sujeito. Ele não é de facto o "ser humano" enquanto tal, mas o sujeito masculino branco ocidental (abreviado MBO) da modernidade. Aqui há que voltar mais uma vez à conceptualidade quebrada da abstracção real do trabalho, assumida na primeira parte deste estudo em ligação com a teoria da dissociação de Roswitha Scholz. A abstracção real vem sempre, não só acidental ou empiricamente, mas de acordo com a sua determinação essencial lógica, junta com a dissociação sexualmente determinada de momentos da reprodução social materiais, socio-psíquicos e cultural-simbólicos, que não cabem no trabalho abstracto/forma do valor. Esta dissociação não deve ser entendida (e assim mal entendida) como "esfera" separada (por exemplo, simplesmente a "privacidade") ou como domínio subordinado, mas como momento essencial abrangente, transversal a todas as esferas, porque está sediado no plano da lógica básica ou da própria matrix. A totalidade capitalista não é portanto uma totalidade monistica, que em si bate certo, como aparece por exemplo ainda em Moishe Postone, mas, enquanto a ser pensada já sempre com a estrutura de dissociação, uma totalidade quebrada, que em si não bate certo (o que implica uma crítica fundamental do conceito de totalidade de Hegel).

Por isso a dissociação, como momento da estrutura essencial do trabalho abstracto, há-de voltar a encontrar-se nos sujeitos desta forma e substância. As mulheres na modernidade são sempre "duplamente socializadas" (Regina Becker-Schmidt), elas estão em certa medida apenas a meias na forma de sujeito, porque também têm sempre de representar e tratar simultaneamente o dissociado, e seja qual for a maneira por sua vez quebrada e diferenciada. A dissociação estende-se, como momento essencial, não só através de todas as esferas da reprodução constituída pela matrix capitalista, mas também através de todas as épocas da sua história interna, com marcas diferentes em cada uma, até à pós-modernidade (vd. detalhadamente Scholz 2000). O mesmo se aplica à humanidade não branca, não ocidental, que debaixo das elites da modernização nunca chegou inteiramente à forma de sujeito moderna, e por isso é sempre a primeira a ameaçar fracassar na matrix capitalista, que lhe é apresentada como perfil de exigência, sem que ela possa atingir as condições para isso necessárias.

A nova qualidade da crítica radical que acompanha a resolução do moderno dilema-sujeito-objecto (não apenas) na teoria da crise e do colapso, exige por isso não só uma crítica da ontologia do trabalho, mas também uma crítica do sujeito, como portador da acção desta ontologia; e não só uma crítica do sujeito, mas também uma crítica da estrutura de dissociação a ele ligada por lógica essencial. Uma "crítica do trabalho" reducionista, que leva a crítica do sujeito só até meio (isto é, até um conceito de sujeito sexualmente neutro) e que ignora a lógica de dissociação, ou a degrada como algo meramente histórico-empírico, permanece sob a égide do MBO e está condenada ao fracasso. Apenas uma crítica radical integrada em igual medida do trabalho abstracto, da forma do sujeito e da dissociação sexualmente determinada pode ganhar a força de impacto para uma suplantação da ontologia do trabalho, e com isso da matrix do campo capitalista. Outra vez, para registo: o conteúdo da crítica não pode ser apenas a eterna invocação do sujeito nas categorias ou junto com as categorias, mas sim a crítica e por fim a destruição prática da matrix categorial e com isso do sujeito, do próprio MBO.

Para a esquerda, mesmo precisamente para a esquerda radical, este entendimento é tão difícil e quase insuportável, porque ela, como herdeira da falsa subjectivação das categorias adoptada no marxismo do movimento operário, por assim dizer congelou de modo particular o conceito de classe. Porém, a "classe operária" não é outra coisa senão - um sujeito, um sujeito do trabalho abstracto e com isso um MBO, o que a história da relação entre os sexos e da sua reflexão de muito curto alcance ou totalmente ignorada no contexto da história da luta de classes demonstrou à saciedade. O conceito de luta de classes é de um universalismo androcêntrico, porque continua preso à ontologia do trabalho e porque declara como alavanca ontológica da emancipação o que não passa de forma e substância da matrix capitalista. Assim, a classe operária permaneceu em última instância como máscara de carácter do capital variável, e a luta de classes, de acordo com o seu conceito, um movimento de modernização no espaço interior do campo capitalista. Hoje desmorona-se empiricamente a marca luta de classes, porque no novo entroncamento da história de crises capitalistas a própria substância do trabalho se tornou obsoleta e as categorias sociais empíricas, que estão entregues à administração da crise, já não se deixam subsumir sob o "trabalho criador de valor" como categoria abrangente. Mas a esta empiria já não corresponde nenhum novo conceito de crítica. Falta o conceito de crítica precisamente porque falta o conceito de crise, porque não foi suplantada a subjectivação das categorias.

Mesmo assim, ainda cintila ocasionalmente o problema central, até junto dos últimos políticos da luta de classes, há muito condenados a uma existência meramente virtual. É o que diz, por exemplo, um texto da revista tardo-operaista "Wildcat", completamente ao arrepio das habituais subjectivações categoriais, sobre o conceito de fetiche de Marx: "Ele fala ironicamente das "leis naturais" da produção no contexto do capitalismo, o que tanto os marxistas estruturalistas como os críticos do determinismo tomam à letra, sem verem a crítica aí contida" (Circular Wildcat 2000). Com isto se começa a abordar o problema da matrix (abrangente da estrutura social e das classes), ou da falsa objectivação, como objecto da crítica. Vai ainda na direcção certa quando diz mais adiante: "A acusação de determinismo, como acusação passe-partout contra qualquer análise materialista, deita fora o bébé com a água do banho, e contrapõe especularmente ao determinismo estruturalista não histórico um conceito da ‘liberdade’ ou da indeterminação (‘contingência’) histórica igualmente não histórico e filosófico" (ibidem).

Torna-se porém claro que a crítica categorial ainda está no princípio, porque é incompleta: "As teorias de colapso e deterministas são porém em todo o caso de criticar, se recusam aos seres humanos a possibilidade de no decurso da história poderem tornar-se sujeitos autodeterminados da sua própria história." (ibidem). Aqui surge a forma de sujeito, precisamente ela que impossibilita a autodeterminação, porque é a forma categorial de pensamento e acção da matrix feticista, ainda no estado de pretensa inocência emancipatória; porventura porque o sujeito das classes deve ser salvo incondicionalmente, apesar de ser "em si" parte integrante da objectivação negativa, designadamente sendo ele próprio totalmente constituído sem qualquer resseguro ontológico pela matrix do campo capitalista, e de ser a forma de existência do MBO.

Pelo contrário Freerk Huisken, um ideólogo da revista marxista "Gegenstandpunkt", mostra-se todo imune a dúvidas sobre a ontologia do trabalho e a objectivação fetichista, quando assinala a ideia da ruptura categorial com o trabalho e com a produção de mercadorias da literatura de crítica do valor com um ponto de exclamação entre parêntesis, como se tivesse descoberto uma loucura particularmente evidente. Ele procura ironizar à força "sobre essa coisa da ‘ruptura categorial’..." (Huisken 1999), para acabar por classificá-la como irracionalidade esotérica e "revisionismo": "O leitor... não precisa de nenhuma razão para o seu anti-capitalismo filosófico, mas só da na notícia do desencadeamento do tempo final, da visão de um mundo melhor e da ‘ruptura categorial’ com a crítica do capitalismo de Marx, ou seja, da completa rejeição da luta de classes" (Huisken, ibidem, itálico de Huisken). É uma mera colecção de palavras de toque postas em itálico, que aqui são reunidas em acto reflexo em torno dos conceitos das categorias, e que já parece ficar reduzida a meros sons sem sentido. Ora a crítica categorial é de facto uma ruptura com o entendimento que ele, Huisken, tem da "crítica do capitalismo de Marx". Só que ele, tal como todo o círculo da "Gegenstandpunkt", não fazem a mínima ideia de que com este entendimento não passam de um resíduo duma história da teoria fora de prazo.

Provavelmente ainda há-de correr alguma água por baixo das pontes até que se extinga a cena marxista residual, com a sua fé em "fazer política", no "sujeito" e na "luta de classes". Esta cena verá sempre nos conceitos de crise categorial (limite interno absoluto) e crítica categorial apenas uma espécie de quietismo e capitulação, precisamente porque só consegue pensar a crítica e a emancipação nas categorias da matrix capitalista. Para recorrer mais uma vez a uma analogia da área da física mais recente: acontece com eles talvez um pouco como naquela parábola predilecta dos cosmólogos e físicos quânticos, que pretende ilustrar para o nosso entendimento quotidiano o problema do entendimento do mundo "impossível" dos quanta, das cordas etc.: "Um camponês pede a um engenheiro para lhe explicar como funciona a máquina a vapor. O engenheiro dá-lhe uma explicação detalhada, desenha diagramas, explica os princípios fundamentais, mostra-lhe onde se carrega o combustível e onde sai o vapor, como o calor se transforma em movimento etc. Quando o engenheiro acaba, diz o camponês: ‘Compreendo. Mas onde é que está o cavalo?’..." (Cole 2004, 202). Isto, diz um físico, reflecte os sentimentos "que tem perante a teoria da relatividade geral de Einstein. ‘Compreendo, mas não sei onde é que está o cavalo’..." (ibidem, 202 sg.). Um marxista residual como Huisken, se quisesse debruçar-se a sério sobre os conceitos de constituição- sujeito-objecto da sociedade, campo histórico, matrix capitalista, objectivação das categorias etc. havia de compreender tudo de alguma maneira. Mas no fim havia de voltar sempre a perguntar apenas onde é que está o cavalo.

O conceito de quantidade de trabalho abstracto e a acusação de "naturalismo"

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Original DIE SUBSTANZ DES KAPITALS. Abstrakte Arbeit als gesellschaftliche Realmetaphysik und die absolute Schranke der Verwertung in revista EXIT! Krise und Kritik der Warengesellschaft, 2/2005 [EXIT! Crise e Crítica da Sociedade da Mercadoria, 2/2005]

ISBN: 3-89502-196-2, editora Horlemann Verlag, Postfach 1307, 53583 Bad Honnef, Tel 0 22 24 - 55 89, Fax 0 22 24 - 54 29, http://www.horlemann-verlag.de/

Tradução de Lumir Nahodil e Boaventura Antunes, 03/2006

NOTA DE "OBECO":

No Editorial da EXIT! nº 3 de Janeiro/2006 há a seguinte referência ao presente texto:

"Muitas leitoras e leitores sentirão talvez a falta da continuação nesta edição da série de artigos de Robert Kurz "A substância do capital". O projecto não está porém interrompido, mas vai sair em 2006 completo, em livro com cinco partes, na editora Horlemann. Aliás, a série pela sua dimensão ameaçava rebentar com o espaço da revista, prefigurando antes uma monografia. As primeiras duas partes foram assumidas pela nova revista teórica EXIT! sob a pressão da imponderabilidade após a ruptura no interior da velha "Krisis", porque não estava claro se haveria à partida cobertura pessoal para poder manter uma publicação regular. Porém, com uma rapidez surpreendente se viu que a própria cisão libertou uma riqueza na produção de textos e trouxe novas autoras e autores. A EXIT! sai mais frequentemente, é sensivelmente mais volumosa e tematicamente mais extensa que a velha "Krisis" (para já não falar da Krisis residual da etiqueta falsificada). Assim, a série de artigos pôde agora ser separada sem dificuldade como projecto de livro, com o título de trabalho "TRABALHO MORTO. A substância do capital e a teoria da crise de Karl Marx". As duas primeiras partes serão reelaboradas (será particularmente reforçada a polémica com teoria do valor de Michael Heinrichs), rearrumadas e expurgadas de gralhas. Segue-se-lhes como terceira parte a teoria da crise em sentido estrito, constituindo a quarta a análise do trabalho produtivo e improdutivo e a última a polémica com a teoria subjectiva do valor no contexto do sistema de crédito, capital fictício e virtualização pós-moderna."

http://obeco.planetaclix.pt/

http://www.exit-online.org/