Robert Kurz

WOLPERTINGER NO PARQUE JURÁSSICO

A regressão imparável dos círculos da esquerda radical alemã  

Aconteceu o que tinha de acontecer: A bolha ideológica anti-alemã rebentou. Com uma rapidez surpreendente, a fauna correspondente está a decompor-se desde os finais do Verão de 2003. As vergonhas intelectuais dos ani-alemães hardcore formados em torno da Bahamas e do ISF Freiburg pelos vistos não podiam mais ser ignoradas. No entanto, as violentas disputas no seio da ampla fauna dos anti-alemães softcore que, até à data, tinham seguido todas as tendências ou, ao menos, tinham dado cobertura aos seus para fora, não indiciam qualquer reflexão autocrítica. Seria uma lisonja descabida atestar o nível duma zaragata de taberna a este debate, conduzido em primeira linha através de fóruns da internet (Sinistra etc.).

Os nervos estão à flor da pele, mas o bloqueio identitário ainda tende a reforçar-se. A repentina ruptura da Konkret com o lobista das ONGs e barão das mentiras alemão Thomas v.d. Osten-Sacken e o parceiro do mesmo, Thomas Uwer, o revelador namoro deste duo com a manhosa associação etno-ideológica "Gesellschaft für bedrohte Völker [Associação em prol de povos ameaçados]", a "guerra dos editoriais" na iz3w, o vergonhoso espectáculo do pai da ginástica (1) anti-alemão Wolfgang Pohrt no Tempodrom de Berlim, a dissolução provisória do anti-alemão Kommunistische Gruppe Leipzig [grupo comunista de Lípsia], para além de uma série de ocorrências similares, são sinais de um processo de decomposição que, no entanto, se processa somente de forma natural; sem qualquer reflexão que se preze sobre os fundamentos teóricos obsoletos da ideologia anti-alemã. Aí tudo se fecha em copas.

Tudo menos admitir seja o que for!

Os anti-alemães softcore e os seus diversos media impressos como a Konkret e a Jungle World puxaram o travão de emergência, mas também não lhes apetece sair do comboio que entretanto se imobilizou por completo. Separações como a de Osten-Sacken & Cia e mudanças de sentido inadvertidas são efectuadas à maneira comprovada da diplomacia de bastidores, sem qualquer justificação discursiva; as explicações não passam de lapidares ou nem são dadas, segundo o mote: Tudo menos admitir seja o que for! O facto de, no recreio de internet [Spielwiese], descartarem como "excessos" os piores disparates da Bahamas convive com uma acriticidade quase hermética face à própria postura fundamental desde o 11 de Setembro a esta parte. Em troca empreendem a desesperada tentativa de fazer de conta que logo aqueles que desde o início tinham formulado uma crítica justificada do discurso belicista partindo de uma posição crítica do valor, ou seja, precisamente não de uma perspectiva nacionalista ou "anti-imperialista", já agora são igualmente atingidos pelo desencantamento dos seus próprios ideólogos.

No congresso de contornos anti-alemães e paleomarxistas "Jogo sem fronteiras", na Primavera de 2003, a "linguagem" do panfleto contrário, intitulado "O jogo acabou", devia servir para justificar semelhante ignorância. Neste texto foi dito, com uma referência mesmo gramaticalmente insofismável ao belicismo (ou seja, uma ideologia): "A esquerda radical da área linguística alemã terá de se formar de um modo novo também em termos jornalísticos se alguma vez quiser voltar a ver-se livre desta pandemia". Como "pandemia" eram designados o discurso belicista e a conversa transparentemente ideológica que de repente circulam sem qualquer justificação sobre a suposta "promessa de felicidade burguesa", e não os indivíduos por ela acometidos. Existe uma diferença entre definir como uma "pandemia" seres humanos ou aquilo de que estes padecem. De resto foi para este facto que Immanuel Steinberg (pesquisa Steinberg) chamou a atenção em uma carta de leitor remetida à Konkret que, como é natural, não chegou a ser publicada. É que o que fazia falta era um qualquer papão formal de meia leca que servisse de pretexto para não terem de se debruçar sobre a crítica concreta do seu próprio posicionamento falacioso, oportunista e anacrónico face à mais recente guerra de ordenamento mundial.

Junto da infantaria desta fauna, que há muito interiorizou de forma identitária a rejeição da consequente crítica do valor da Krisis – a qual lhe foi incutida pelos ideólogos anti-alemães agora caídos em desgraça – e que assim entrincheirou ideologicamente a sua própria subjectividade do valor burguesa de esquerda, a colportação da suposta "linguagem violenta" dos autores da Krisis, a funcionar segundo o princípio da brincadeira "o telefone estragado", vai dando frutos cada vez mais frondosos sob a forma de citações totalmente inventadas. Quanto mais pobres em conteúdo forem as evasivas perante as próprias contradições, pior se torna o cheiro na cozinha das denúncias. Os anti-alemães softcore exibem face aos outros precisamente o mesmo comportamento de que, com acerto, acusam a Bahamas.

Entretanto, porém, ganharam uma consciência bem mais clara do que ainda era o caso há meio ano de que as consequências da ideologia anti-alemã são indefensáveis se ainda quiserem de todo operar no contexto da crítica do capitalismo. Mas o que a fauna quer é justamente uma vida mergulhada na inconsequência. O debate resume-se a um confronto superficial com as loucuras e sacanices da pandilha maluca da Bahamas que se furta a pôr em causa a matriz ideológica a que os próprios se encontram circunscritos. Assim a aposta vai no sentido de se rechaçar e excomungar, de um modo perfeitamente superficial, os resultados belicistas, racistas, sexistas etc., ao passo que os pressupostos irreflectidos continuam a ser poupados e cobertos de um silêncio apologético.

São sintomáticas para esta postura as catalinárias de um Volker Radke que, em textos de internet sem pretensões intelectuais, qual músico acompanhante a solo, contribui à orquestração da fauna anti-alemã. Agora Radke pretende salvar o rótulo anti-alemão contra os próprios ideólogos desta tendência que, em sua opinião, já não são suficientemente anti-alemães. A esse propósito não lhe ocorre muito mais que amenizar um pouco as gaffes anti-alemãs de ponta: "A vassalagem para com os EUA (sic!) deveria acabar aproximadamente onde encontram os seus limites a solidariedade americana com Israel e o bloqueio das ambições alemãs no sentido de se constituir como grande potência". Tudo fica, portanto, na mesma: a necessária crítica do antisemitismo e dos prolongamentos actuais da ideologia alemã não deve manifestar-se de outro modo que sob a forma de uma "vassalagem" pro-imperial e parvo-ocidental para com os EUA e em associação ao fantasma anacrónico de uma suposta contra-potência mundial alemã, política e militar; só que desta vez é com certos "limites", a fim de se escapar às consequências absurdas do descomedimento bahamiano.

Esta débil crítica nem sequer toca nos conceitos mistificadores do capital, da crise e da crítica, na deturpação iluminista da verdade histórica e na idealização da forma do sujeito burguesa na ideologia do ISF e da Bahamas, tal como de um modo geral os problemas fundamentais não figuram em todo esse debate. Esta fauna quase que celebra a sua incapacidade de um confronto teórico.

Toda a culpa é da crítica do valor

Existem ténues sinais quanto à direcção em que a fauna anti-alemã tenciona furtar-se às suas contradições não resolvidas. Assim Radke quer denunciar a crítica da abstracção do valor e da relação mercadoria–dinheiro como uma selecção supostamente aleatória de "pedaços da obra da vida de Marx" e espalhar a reconfortante certeza de que a crítica do valor "não pode explicar tudo" o que em x-berg é referido como ponto principal da crítica dirigida à Bahamas e ao ISF ("a insistência na crítica do valor marxista como padrão explicativo único"). A constatação, de qualquer modo nunca assimilada a cem por cento, de que o marxismo do movimento operário tinha ofuscado precisamente a dimensão crítica do valor da teoria de Marx, deve ser mandada para o lixo ou, no mínimo, tornada retrocompatível com o velho paradigma do trabalho, da mais-valia e da luta de classes. Com isso, Radke comprova unicamente que não percebe patavina do assunto, sobre o qual de qualquer forma não tenciona debruçar-se.

No entanto deverá, com semelhante atitude, reproduzir o estado de alma de uma parte relevante da fauna que, nos dois últimos anos, de qualquer modo apenas se tinha formado em função de adaptações superficiais da ideologia anti-alemã, ao passo que não se vislumbrava a menor referência à pretensão crítica do valor. Tanto mais fácil se torna agora responsabilizar, da forma mais rasteira, logo a crítica do valor pelo desaire dos anti-alemães. Isso não dói porque de qualquer modo nunca ninguém se tinha debruçado seriamente sobre o assunto. Pelo contrário, facilita a vida poder-se, denegrindo sem qualquer justificação o rótulo da "crítica do valor", meter a Bahamas, o ISF e a Krisis comodamente no mesmo saco, podendo poupar-se assim a qualquer argumento teórico e, ainda assim, criar a impressão de que o movimento de afastamento face aos próprios ideólogos de outrora é fruto de algum tipo de reflexão crítica que, ainda por cima, se elevaria "acima" da vincada oposição teórica entre a Krisis e os adeptos da Bahamas.

Este raciocínio falho de qualquer argumentação ou mediação passa completamente ao lado do assunto. Uma crítica do valor consequente não equivale, de modo algum, a querer explicar "tudo" com base no valor. Antes, a relação do valor encontra-se mediada com uma "relação de dissociação" sexualmente conotada (Roswitha Scholz), e os indivíduos não se resumem a ambas, porque de outro modo nem seria possível qualquer tipo de crítica. Ao querer agora livrar-se, juntamente com os seus falsos ideólogos, também da pretensão menos fácil de concretizar da crítica do valor, à fauna, que não reflectiu nem o conceito da relação do valor, nem o da relação de dissociação, visto ter-se deixado amestrar pelo ISF e pela Bahamas, já apenas resta refugiar-se de volta ao marxismo tradicional.

Para esse fim, porém, as próprias sumidades do pensamento anti-alemão deixaram aberta uma porta do cavalo. A despeito dos boatos e das auto-encenações em contrário, a Bahamas e o ISF, no plano teórico, não conseguiram ir além da vetusta ontologia do trabalho e de uma concepção sociológica do domínio do capital abusivamente simplificada (quem ainda se interessar, por hipótese, por uma reflexão crítica de fundamentos teóricos, poderá inteirar-se dos pormenores em: Robert Kurz, Die antideutsche Ideologie [A ideologia anti-alemã], publicado pela Unrast-Verlag). O rótulo usurpado da "crítica do valor" nunca foi outra coisa que uma embalagem enganadora.

Assim sendo, mal vinha à baila o conceito da acção crítica da sociedade, aos ideólogos anti-alemães não ocorria senão a conversa fiada da luta de classes, atirada ao ar de forma irreflectida, sem que alguma vez se tivessem debruçado sobre o teor historicamente condicionado, imanente ao valor, desse conceito. E não foi, tão-pouco, um acaso que precisamente o ISF sempre voltasse a cair em um sociologismo abusivamente simplificado, mal se visse constrangido a transcender o seu misticismo conceptual agnóstico em direcção a enunciados analíticos.

Ao passo que a Krisis relacionou o terror do 11 de Setembro com a barbárie de crise, transversal a quaisquer classes, e com a pulsão de morte do sujeito do valor, o ISF ainda dizia enxergar no meio do horror do mega-terror uma diferença interior sociológica. Face à solidariedade oficial da Alemanha com os EUA, o comunicado do ISF a propósito do 11 de Setembro dizia sobre "as, na maior parte das ocasiões, realmente balofas máscaras de carácter do domínio e da exploração" alemães que "têm um aspecto semelhante a Schleyer, Lambsdorff e Olaf Henkel": "São eles quem está de luto pelos corretores do World Trade Center, mas não pelos operadores de ascensor ou pelas empregadas de cafetaria, não pelas secretárias, não pelos empregados em part-time ou pelos transeuntes fortuitos, aos quais o massacre islamista tirou uma vida, cujas míseras alegrias se resumiam a um pouco de jogging e de ciclismo: ainda assim, esta era a única que tinham. Nenhum pavilhão em Estugarda terá o seu nome, contrariamente ao que aconteceu no caso de Hanns-Martin Schleyer" (Dschihad und Werwolf [Jihad e lobisomem], comunicado do ISF, Outubro de 2001).

Esta horrenda classificação das vítimas segundo a respectiva "situação de classe", da qual até transparece, de repente, uma personalização tosca da relação de capital à moda das caricaturas do século XIX ("balofo"), em boa verdade se coaduna muito bem com a interpretação anti-alemã do 11 de Setembro e das guerras de ordenamento mundial no sentido de uma anacrónica alternativa no seio do capitalismo. A infantaria alemã leu por cima destes pormenores. Na realidade, ali, debaixo de uma fina capa de verniz "crítico do valor", não espreitava outra coisa senão o marxismo tradicional irreflectido.

Se agora partes da fauna anti-alemã, que se contorce entre as suas contradições, querem, no sentido das insinuações de Radke (e nesse sentido também vão outros contributos ao debate), limitar-se a deitar borda fora a embalagem enganosa "crítica do valor" do ISF, em vez de começarem a esforçar-se por uma concepção satisfatória da crítica do valor, o marxismo vulgar positivista que, de qualquer forma, se encontra implicitamente contido neste pensamento pode apenas manifestar-se sob a forma de uma regressão descarada.

O regresso dos dinossauros

A regressão da fauna anti-alemã desemboca na tendência geral da esquerda radical para o regresso ao marxismo do movimento operário irreflectido. Este passa por ser um valor seguro, mesmo que a interpretação daí decorrente contrarie os factos de uma forma que roça o ridículo. Trata-se de um marxismo do movimento operário sem movimento operário, e podemos ter a certeza de que já não aparecerá outro. Quase uma década e meia após a mudança de época, os zombis intelectuais do passado morto voltam a arrastar-se para cima do palco como se nada tivesse acontecido.

E não deixa de ser irónico o facto de aquela parte da fauna empestada pelo marxismo tradicional que nunca tinha embarcado na trip anti-alemã agora esforça os mesmos padrões regressivos do pensamento como a fauna anti-alemã softcore desiludida. Logo Werner Pirker, o anti-sionista de eleição dos anti-alemães, diz no órgão preferido do ódio destes últimos, no "junge welt", exactamente o mesmo no que toca à crítica do valor como o pretenso salvador dos anti-alemães, Volker Radke. Depois de se ter realizado a previsão da Krisis de que os anti-alemães funcionam como farejadores de tendências ideológicos da administração de crise capitalista, e com os padrões denunciatórios anti-alemães a serem agora descobertos tanto no [semanário liberal] "Die Zeit" como no [diário conservador de Munique] "Merkur" para se rotular qualquer crítica do capitalismo de "antisemitismo", Pirker, partindo de motivações opostas, chega, exactamente como Radke, à conclusão apressada de que a culpa de tudo só pode ser da crítica do valor: "É um facto que o capital constitui uma relação objectiva que, segundo Marx, encontra nos capitalistas os seus ‘fanáticos’. No entanto, o antagonismo social é imanente à relação do capital. E este antagonismo tem os seus protagonistas – proprietários e não-proprietários, exploradores e explorados. E não judeus e não-judeus. Foram supostos ‘esquerdistas radicais’ quem serviu de inspiração ao discurso mainstream. Gente, cuja crítica do capitalismo se esgota na eterna conversa fiada em torno da 'forma de mercadoria da produção capitalista’ e que há muito deixou de atentar nas relações de classe concretas" (Werner Pirker, ATTAC in "Zeit"lupe, in: junge welt, 25.10.2003).

É mesmo uma anedota: Logo Pirker que, com o seu antisionismo grosseiro e o seu anti-imperialismo nacionalista, forneceu aos anti-alemães um mote após outro, tendo contribuído a sua parte à estratégia de frente transversal dos neonazis, agora acha que com meia dúzia de reparos de "lutador de classes" de pacotilha dirigidos contra as supostas bases críticas do valor dos farejadores de tendências anti-alemães da ditadura de crise burguesa pode arrasar também a posição daqueles que, muito contrariamente a ele mesmo, apresentaram uma análise reflectida a nível teórico da ideologia anti-alemã, e o fizeram precisamente com recurso a uma crítica do valor consequente. Com ele passa-se exactamente o mesmo como no caso de Radke: Já que deixaram a crítica com fundamentação teórica da síndrome anti-alemã a cargo dos críticos do valor da Krisis, agora, a posteriori, embirram com a crítica do valor a fim de desdentadamente ruminarem certezas tão velhas como obsoletas, ao passo que julgam poder descartar a crítica categorial do "modo de produção baseado no valor" (Marx), que se encontra na ordem do dia histórica, e da qual nunca compreenderão o mínimo, como uma "conversa fiada em torno da forma de mercadoria".

As mesmas pessoas que se tinham mostrado totalmente incapazes de produzirem uma única linha de reflexão crítica sobre o fim irreversível do movimento operário tradicional e sobre o colapso do socialismo de estado e dos movimentos de libertação nacional, agora têm a lata de despacharem todo o trabalho de análise crítica dessa história sob o prisma da crítica do valor, entretanto efectuado em numerosos livros e artigos, com o gesto de proletário esclarecido à moda de um Thälmann virtual como "contributos do jornalismo literário à história contemporânea", "pouco conspurcados por conhecimentos daquilo que entre comunistas é entendido por teoria – nomeadamente a crítica da economia política de Marx, incluindo os materialismos histórico e dialéctico (!)"; assim escreve um dinossauro chamado Müller no editorial da trend partisan (Outubro de 2003).

Pelos vistos o desplante pós-moderno, que consiste em dar notas aos outros quando não se tem absolutamente nada a dizer, entretanto também se tornou moda no parque jurássico. Depois de não se terem mostrado capazes em catorze anos de porem em causa com um pensamento que fosse a identidade de dinossauro enraizada no marxismo do movimento operário, pretendem agora, sem mais nem menos, farejar novamente o ar fresco da manhã, mesmo que não exista a mínima justificação para tal, sendo o que farejam somente o ar frio da própria tumba.

Os ignorantes mais ferrenhos desta nostálgica tertúlia taberneira de dinossauros até se encontram seriamente empenhados em atestar vida e boa saúde à múmia do leninismo. Nesta atitude também se integra o desprezo injustificado pelos temas dos novos movimentos sociais que emergiram desde os anos 80. Para eles, todo o plano de reflexão das relações entre os sexos e da destruição dos fundamentos da vida pelo trabalho abstracto é para ser riscado, ou então levado a descer para ao nível de August Bebel. O regresso à versão jurássica da crítica do capitalismo também engloba o renascer anacrónico do culto do proletariado e do produtivismo ideologicamente empolado, onde não faltam uma "cientificidade" positivista barbuda, os machos de casaco de cabedal e o pivete patriarcal sindicalista, tal como outrora, no Maio da social-democracia das associações masculinas, provavelmente incluindo a ideologia da maternidade de uma Clara Zetkin no seio da organização feminina, responsável pelo aconchego geral.

Quem não chegou ao século XXI está condenado a voltar a cair no século XIX em termos intelectuais, passando a encarar a controvérsia entre Lenine e Kautski como pura ficção científica. Isso é que ainda era vida: tempos a valer para "homens às direitas" com bonés de pala e "mulheres a cem por cento" com penteados campónios, "fábricas a sério" com verdadeiras máquinas a vapor e "autênticos proletas" de punhos calejados, e evidentemente os inesquecíveis "lutadores de classes genuínos" de dístico partidário na lapela do bom fato domingueiro. Quer-se que voltem a fumegar as chaminés desses tempos gloriosos. No tempo cíclico das perpétuas revoluções operárias e camponesas, os heróis da luta de classes, do Outubro vermelho e da "nação socialista" aguardam pelo seu regresso mítico, ou haverá aí uma pequena confusão com o mito imperial de Frederico Barba Ruiva e do seu exército de fantasmas?

É uma trapalhada conceptual "proletária" sem carne nem vida, de cujo interior acena a mão do esqueleto. E este fossilismo teórico fica bem junto com a nostalgia a Leste, nas províncias do defunto socialismo de passo de ganso, onde os botas-de-elástico ainda confundem a emancipação social com as virtudes prussianas acrescidas da electrificação do lar psíquico. No entanto, a múmia teórica do leninismo também não tem descanso do lado de alguns esquerdistas ocidentais desorientados, cuja confusão é tanta que se dedicam a procurar por revelações no Antigo Testamento do marxismo do movimento operário. Segundo o que se ouve dizer, grupos autónomos e antifascistas que não se passaram para o lado da escola dos bombardeiros de longa distância dos adornitas assassinos organizam agora aulas de catequese com o escrito de Lenine "O imperialismo como estádio supremo do capitalismo". Assim passaram de uma vez da doença infantil da esquerda radical para o grau mais elevado da senilidade dogmática. Da mesma forma poderiam estudar hoje as obras de Walter Rathenau ou o "livro verde" de Khaddafi. Não seria por isso que ficariam mais longe da realidade do século XXI.

Os fantasmas que andam por aí não são originais, mas dinossauros bonzai, resquícios de um passado glorioso que não chegam aos calcanhares do objecto da sua idolatria. É que Lenine e os verdadeiros coriféus do passado foram, no seu tempo, tudo menos papagaios dos esplendores passados de movimentos e revoluções mas, sim, revolucionários da teoria. E hoje, o que está na ordem do dia, é a revolução da crítica do valor, e não a nostalgia teórica.

Será que os diversos sósias do marxismo do movimento operário acreditam mesmo que podem incutir, uma vez mais, uma "consciência de classe adequada" a um aglomerado social feito de desempregados permanentes, mães solteiras dependentes das prestações da segurança social, sociedades anónimas unipessoais, trabalhadores apenas aparentemente independentes, empresários do pão que o diabo amassou, trabalhadores temporários, aristocratas operários da indústria de armamentos, burocratas sociais da administração de crise etc.? Acreditam mesmo que podem, uma vez mais, recorrer à resistência social sob o rótulo da "luta de classes"? Acreditam mesmo poderem, uma vez mais, abarcar um capitalismo globalizado em função dos imperativos da economia industrial com os conceitos dos imperialismos nacionais? Acreditam mesmo ser-lhes possível reivindicarem, uma vez mais, num mundo marcado pela sobreacumulação estrutural, por crises de dívida e por um capital fictício globalizado, a "mais-valia usurpada" para a "classe criadora de todos os valores", o que, de qualquer forma, sempre foi mais a opção de Lassalle que a de Marx? Acreditam mesmo poderem formular como objectivo socialista, após o colapso da "modernização recuperadora", uma vez mais uma "produção de mercadorias planificada" instituída por um "estado operário"? Quando a esquerda restante, incapaz de renovar a crítica do capitalismo com recurso à crítica do valor, cacareja, na falta de outros conceitos, "luta de classes", em nada contribui para um desenvolvimento ulterior dos esboços de um movimento social.

A regressão em curso de uma esquerda que, na realidade, há muito tempo que deixou de ser radical, já nem sequer pode ser designada, segundo a tão esforçada sentença de Marx, como a farsa que se segue à tragédia. É que a farsa já passou. Quando a "nova esquerda" celebrou, por ocasião das greves de Setembro de 1969 na indústria automóvel, a "redescoberta da classe operária", já se tratava de um malentendido histórico grosseiro. Hoje não existe qualquer manifestação social real que convide a um revivalismo das palavras de ordem do marxismo do movimento operário. Trata-se de uma necessidade puramente ideológica de uma esquerda residual atolada no passado, do mero produto da decomposição de um edifício de ideias em dissolução.

No círculo restrito do radicalismo de esquerda ideológico propriamente dito, a conjuntura regressiva também pode ser explicada, em parte, como um reflexo do desastre dos anti-alemães. Em uma dimensão social mais ampla, o esvaziamento completo da social-democracia e a crise dos sindicados conduzem a que se destaquem de ambos as respectivas franjas situadas mais à esquerda, ao passo que organizações com pretensão a movimentos como a Attac alimentam o seu anti-capitalismo abusivamente reduzido com fragmentos do marxismo vulgar. De um modo nebuloso agrupa-se um campo ideológico difuso feito de nostalgia keynesiana, social-democracia à Oskar Lafontaine, marxismo tradicional e frustração organizacional no séquito de Hartz (2) e da Agenda 2010. Este quer responder à situação nova com receitas velhas no âmbito da forma do valor e da ontologia do trabalho. Desse campo parece sugar vida nova, por exemplo, uma editora como a VSA, onde se pode constatar uma substancial ampliação do programa com recurso a títulos a condizer, até à anedota teórica da "economia de mercado socialista". Que aqui apenas se voltam a repisar trapos velhos decorre, por exemplo, da reedição ao fim de 17 anos do calhamaço de Dieter Wolf, "Ware und Geld [Mercadoria e dinheiro]", a tresandar de ontologia do trabalho, sob um título novo ("Der dialektische Widerspruch im Kapital [A contradição dialéctica no seio do capital"), do qual a crítica do valor da Krisis já se tinha distanciado nos seus começos mais remotos. No entanto, da recolha de tristes resíduos ainda não resulta uma perspectiva de futuro. Afinal a soma de morenas finais também não equivale a uma cordilheira nova.

A nostalgia do marxismo do movimento operário constitui, tal como a ideologia anti-alemã no seio da esquerda, uma reacção afirmativa do sujeito do valor perante a sua crise histórica. O facto de já há algum tempo existir, entre estas duas manifestações ideológicas, uma certa convergência subterrânea, ficou demonstrado pelo congresso "Jogo sem fronteiras" ou, por exemplo, pelo programa da Universidade vermelha do Ruhr. Quanto mais violentamente a crise social atinge de forma prática a própria vida, mais furiosamente tem de ser escamoteado o limite histórico interior do sistema produtor de mercadorias e das respectivas categorias sociais. Até uma seita propagandística como a antiga MG ("Gegenstandpunkt [posição contrária]") que, de resto, não deixa de se assemelhar, pela sua estrutura, à horda da Bahamas, e que reduziu o marxismo positivista da ontologia do trabalho até ao esqueleto de uma crítica da economia política abusivamente simplificada com os meios da sociologia de classes, parece voltar a entrar em voga.

Não é em nada melhor a tentativa de uma reciclagem pós-moderna do mesmo marxismo do movimento operário, tal como foi criada por Hardt/Negri com o vácuo pseudo-conceito da "multitude". São as mesmas saudades teorico-reaccionárias, as disposições e necessidades regressivas de uma esquerda residual que perdeu a respectiva pátria, que se manifestam na versão pós-moderna de um modo antes de mais encriptado, tornando-se assim cómicas, quando muito, involuntariamente, por exemplo quando o grupo Kritik und Praxis [Crítica e práxis] (KP) de Berlim propagandeia "a entrada para a luta de classes" da seguinte forma: "Uma luta de classes sem uma classe que poderosamente se bata pelo seu anti-capitalismo – de que modo poderá funcionar?... Como é que se pode pensar uma concepção da luta de classes que não aposte na missão histórica da classe operária, formulando, ao invés, opções políticas gerais de esquerda (!)?" (Convocatória, Outubro de 2003, documentado em x-berg). Missa sem Deus, febras sem porco, pensamento sem pensamentos – será possível? Uma realidade social alterada não pode ser redefinida com recurso à esperteza saloia. A redefinição pós-moderna dos conceitos é pura e simplesmente ridícula.

A partida em direcção à superficialidade democrática da aparência

Seja como for: A maior parte dos anti-alemães falidos não descobriu a sua predilecção por "Class war", "proletariado", "multitude", "questão social" etc. por nutrir um sério interesse pela resistência social que até ontem era denunciada sem distinções e que alguns até em pleno processo de regressão continuam a denunciar. À imagem e semelhança dos artistas pós-modernos do recalcamento, e com o aval ideológico dos seus antigos ideólogos, eles são, no fundo, protótipos de sociedades anónimas unipessoais. O que se passa é apenas que o chão da sua ideologia irreflectida se tornou demasiado escaldante debaixo dos seus pés, uma vez que se vêem cada vez mais isolados.

É sintomático desta viragem inadvertida o desenvolvimento temático do semanário anti-alemão softcore Jungle World, também conhecido como o "Welt" dos pequenitos, cuja redacção, há um escasso meio ano, estava plenamente empenhada em prol da guerra, percorrendo a RFA na companhia de representantes de partidos curdos nacionalistas e pró-americanos, e que agora, em toda a inocência, organiza uma digressão similar com programas "sobre a desmontagem do estado-providência", sob o mote: "work hard, die young [trabalha no duro, morre jovem]". Mas esta viragem não é minimamente credível, uma vez que não é acompanhada de qualquer tipo de discurso crítico sobre a própria orientação após o 11 de Setembro, que é totalmente incompatível com uma crítica social séria. Afinal, até à data, as práticas desta última foram desancadas no "Welt" dos pequenitos de um modo assaz denunciatório, à boa maneira anti-alemã.

Ai, houve uma guerra de ordenamento mundial de menor importância? Alguém secundou a guerra com um jornalismo propagandístico da pior espécie? Mas quem vai sobrecarregar a sua memória por um prazo superior a seis meses... "Trabalharam no duro" para vender a guerra à esquerda como "libertação"; "morrer jovem" é o que ameaça vir a ser o destino do jornal, uma vez que, não em último lugar devido a essa proeza, lhe fugiram os assinantes. A "questão social" supostamente redescoberta é sobretudo a da própria sobrevivência como "Welt" dos pequenitos, e a isso corresponde a falta de empenho com que o tema é abordado, em termos de conteúdos, na sua vertente social. Tudo não passa de quererem insinuar-se um pouco aos praticantes do movimento social na esperança de arrebanharem novos assinantes e, por isso, reduziram a um mínimo a visibilidade da ideologia assassina "pró-ocidental" do "imperialismo de libertação", embora não lhe tenham retirado uma vírgula.

Não deixa de ser um sinal de coerência que a "questão social" destarte instrumentalizada não seja percepcionada no horizonte da teoria da crise, da crítica do sistema produtor de mercadorias e da luta contra o trabalho abstracto, sendo, ao invés, subordinada à mais podre e obsoleta das concepções burguesas, nomeadamente à "democracia". Com a mais gasta das frases feitas da velha esquerda, o mantra totalmente esvaziado de sentido da "democratização", pretende-se ousar a partida rumo a litorais novos. Fica de fora a constituição formal dos sujeitos que aqui devem "ousar democracia" (3); é recalcado o facto da "formação da vontade" social ter desde sempre por pressuposto a concorrência baseada na obrigatoriedade do trabalho, na mediação do mercado e na abstracção real do dinheiro, e de ser precisamente este pressuposto o que teria de ser quebrado e abolido. É escamoteada a obsoletude do conceito da política, já óbvia a qualquer criança, que não designa outra coisa que a outra face da "comunidade abstracta" (Marx) da socialização negativa sob a forma do valor.

Pretende-se substituir o programa da abolição, uma vez mais, pelo programa da moderação política democrática a fim de se delimitar a priori os movimentos sociais futuros ao horizonte conceptual do sistema produtor de mercadorias. No entanto, o que ainda tinha algum cabimento histórico para o marxismo do movimento operário, no sentido do "reconhecimento" imanente dos trabalhadores assalariados (ainda que não o tivesse de todo no sentido de um "comunismo" transcendente do sistema), hoje pura e simplesmente perdeu a razão de ser. Todo o verniz moderno "pop" de nada serve: A perpétua autocondenação da esquerda ao mundo burguês fica mal vista face à crise desse mesmo mundo. Quem, com a sua crítica, não alcançar a constituição categorial do capitalismo, nada mais alcançará. Pois o que ainda resta para "democratizar"? O mercado de trabalho? O modo de existência como capital humano? As cadeias transnacionais de criação de riqueza? Os mercados financeiros? O FMI? O pentágono? A política externa da Alemanha? A penitenciária? O matadouro? A segunda natureza? A primeira? Pois façam bom proveito...

Neste sentido prepara-se actualmente mais um congresso de putativos "democratas radicais", co-produzido pelo "Welt" dos pequenitos, e que, sob o título "Indeterminate!", reivindica para si o nome perfeitamente enganoso de um "congresso sobre o comunismo". Se já o congresso "Jogo sem fronteiras", da Primavera de 2003, foi uma hipocrisia, visto que se pretendia criticar o "anticapitalismo abusivamente simplificado" do movimento antiglobalização com afirmações de um marxismo tradicional por seu lado abusivamente simplificado (e com a ideologia belicista anti-alemã como pano de fundo discreto), este congresso vem assinalar o Outono da crítica intelectualmente debilitada pelo ideário democrático no seu todo. O "Welt" dos pequenitos quer, pelos vistos, sobreviver como a Super-Illu (4) das frases feitas estupido-democráticas, e ninguém lhe inveja semelhante merecido destino. Depois da "democratização" do Iraque ter corrido às mil maravilhas, agora avançam "radicalizando" rumo à "democratização da democracia". Alguém se riu? Ou será mais caso para o riso nos ficar entalado na garganta?

O facto de se pretender arrebanhar o pensamento crítico no enquadramento categorial do mundo burguês, alucinado como impossível de transcender, é referido com toda a clareza desejável nos documentos preparatórios deste mais miserável de todos os congressos dedicados ao "comunismo", compilados pelo "Welt" dos pequenitos: "Fora do horizonte democrático, uma alternativa emancipatória ao status quo já não pode ser formulada ... o horizonte democrático, tal como todos os horizontes, não pode ser transcendido (!)... As democracias ocidentais não preenchem o horizonte democrático nem por sombras. Não passam de um projecto particular (!) que o coloriu e hegemonizou à sua própria imagem ... Trata-se de hegemonizar o horizonte democrático, não de o transcender (!). Tal implica uma alteração de estratégia: agora o objectivo consiste em alargar o horizonte democrático e em reclamar e radicalizar os princípios da revolução democrática (!). Sob esta perspectiva poder-se-ia dizer: não há necessidade de clamarmos pateticamente por uma ‘revolução’ do horizonte democrático, visto que a revolução já ocorreu (!). O horizonte repousa sobre ela (!), ele é a revolução ..." (Oliver Marchart, Der Tag, an dem die Sonne scheint [O dia em que brilha o Sol], in: Jungle World 43/2001).

Aqui temos, claro e explícito, o que, ao fim e ao cabo, também define a ideologia anti-alemã: em vez do rompimento com a relação de capital, a idealização da forma de relacionamento burguesa. O caminho já não é para a frente do marxismo do movimento operário, mas para trás do mesmo. Com a revolução burguesa de 1789 dá-se mais uma vez por terminada a história das formações sociais; a partir daí, tudo se resume a "aperfeiçoar" um "horizonte" imutável que, afinal, já se mostrou tão singularmente edificante nos últimos 200 anos. E na Alemanha este "horizonte intransponível" foi alcançado em 1848 pelos jarretas da igreja de S. Paulo, dos quais já Marx fazia troça. Com base na "Declaração dos direitos do Homem" de sujeitos concorrenciais burgueses pretende-se que "um (disputado) direito universal à política (!)" inaugure uma "esfera de politização ilimitada" (Marchart, a.a.O.). Não poderia ser ainda um pouco mais inócuo? E é disto que o "Welt" dos pequenitos apresenta aos seus leitores residuais como o último grito do "debate". Se ainda ontem os críticos da globalização eram denunciados a eito como antisemitas e nazis, hoje, por motivos de razão de público, se fareja o rabo ideológico do movimento. Mas talvez seja este o desenvolvimento natural da síndrome anti-alemã.

Esta vanguarda "radicalmente democrática" da regressão, que pretende vasculhar o terreno da ontologia capitalista uma vez mais em busca de um ovo de surpresa emancipatório, é tão "indeterminada" que qualquer peido que ela venha a dar durante este congresso pode ser previsto com uma precisão matemática. "A liberdade e a igualdade são os pontos de referência fundamentais no seio do sistema de coordenadas normativo de uma política de esquerda ... É por demais óbvio (!) que a realização social da democracia implica a superação dos modos de produção capitalistas ... É apenas justo que a justiça seja para valer ..." etc. Aqui, até Habermas não consegue evitar o esboço de um sorriso. Já nem vale a pena comentarmos semelhantes frases do"grupo de base DemoPunk", sediado em Frankfurt (in: Jungle World 43/2003). Qualquer avó mediamente informada já sabe que a democracia não é outra coisa senão a forma mais desenvolvida do estado capitalista, em que, segundo Kant e Bentham, cada um pode ser o seu próprio negreiro. Poder-se-ia falar em "projectar" um "novel grande gesto" (se é que temos de nos expressar desta maneira empolada à Negri) se a crítica radical da forma de relacionamento democrática fosse posta na ordem do dia. Mas essa gente, que aí palreia sobre querer "colocar em perigo a História ", põe em perigo, com o seu "horizonte que repousa" sobre a superficialidade democrática, unica e exclusivamente, a língua alemã; e, não em último lugar, é isso que sobra no "Welt" dos pequenitos do impulso anti-alemão.

O que aqui se "encena" como "acordo entre livres e iguais soberanos, intencionais e racionais" (grupo de base DemoPunk, ibidem), é a edição carnavalesca da central federal de educação política [Bundeszentrale für politische Bildung]. Se, há um ano, uma semelhante caracterização do "Welt" dos pequenitos ainda constituía um exagero polémico, entretanto tornou-se verdadeira sob a forma de uma sátira real. Já não pode ser superado o "direito universal à política"; se bem que seja melhor não nos precipitarmos, com semelhantes enunciados, ao falar do "Welt" dos pequenitos. Talvez o jornal se salve se apenas um em cada dez professores de educação cívica no seio do horizonte democrático preencher o seu impresso de assinatura; e se apenas um em cada cem chineses me der um cêntimo, pago a toda a redacção do "Welt" dos pequenitos um curso de reciclagem para aprenderem uma profissão honrada, tal como a de guarda de parque de estacionamento.

Embora já não tenham o mínimo a oferecer, tendo-se já há muito convertido no órgão central da seca organizada da esquerda, fazem de conta que só agora começam a levantar voo: "Sem gurus, mas com teóricos e praticantes da revolta social" (editorial N° 43/2003). Do seu aspecto real, os contributos para esse absurdo "congresso sobre o comunismo" constituem um vivo testemunho. Mas ainda há mais. Por ocasião do glorioso distanciamento face aos"gurus dos anos 90", o "Welt" dos pequenitos descobriu, por vias da mudança de geração teórica, um jovem talento totalmente desconhecido, chamado Wolfgang Fritz Haug, que teve a honra de poder estrear-se com um artigo dedicado ao "debate da democratização". Este teórico da revolta democrática das pantufas é tão fresquinho que já há mais de 30 anos teve oportunidade de explicar aos seus alunos por que é que, no socialismo hiper-real, tinha de continuar a existir a forma do valor, assim como o trabalho abstracto, na medida em que o fetichismo social é tão sobejamente benéfico e redutor de complexidades. Quem, em termos de campos de referência, passou por tudo, desde o DKP com paragem no eurocomunismo, até à pós-modernidade democrática, bem pode ir parar ao "Welt" dos pequenitos como estação terminal. E vice-versa. Que aliança perigosamente revoltista no interior da horizontal democrática. Aos poderes instituídos apenas resta tremer: "Assinar a Jungle World pode conduzir a uma morte lenta e dolorosa do capitalismo" (anúncio em grande formato, N° 43/2003). Se substituirmos o "capitalismo" por "cérebro", a frase passa a fazer sentido.

Vêm aí os Wolpertinger!

O projecto global da regressão esquerdista, em que a fauna da insolvência anti-alemã desempenha um mero papel secundário, já há algum tempo que é publicado por W.F. Haug sob o rótulo de um "marxismo plural". No entanto, tal não deve ser confundido com um debate aberto em torno da história e do futuro da recepção e do desenvolvimento ulterior da teoria de Marx. O "marxismo plural" de Haug nunca foi suficientemente plural para poder reflectir seriamente a abordagem crítica do valor. Com efeito, isso é fácil de explicar. É que essa "pluralidade" não representa outra coisa que uma reserva intelectual de todos os marxismos do passado que passaram da respectiva data de validade no contexto comum do marxismo do movimento operário, e onde também encontrou acolhimento a iridescente versão pós-moderna. Tal como Henry Ford disse que o seu modelo T podia ser fornecido em qualquer cor, desde que fosse preta, e tal como a mercadoria pode assumir qualquer forma, do lixo nuclear até ao tomate geneticamente modificado, desde que consiga realizar um preço enquanto abstracção do valor, o "marxismo plural" absorve todas as teorias, desde que não saiam do âmbito da falsa ontologia do moderno sistema produtor de mercadorias. Vai de si a total incompatibilidade com a crítica do valor coerente, que transcende essa mesma ontologia.

No seu tempo real, estes marxismos não podiam de modo nenhum ser reunidos de forma "plural", tendo-se envolvido em combates assanhados; e assim foi, não apenas por terem porventura sido dogmáticos e inflexíveis, mas por estarem em causa verdadeiras questões conflituosas no contexto do movimento histórico ainda ascendente da sociedade mundial "baseada no valor". Se hoje são compatíveis, é apenas porque todos juntos perderam a sua razão de ser. O cisma entre a social-democracia e o comunismo (bolchevismo), por exemplo, há muito que se encontra pacificado de forma regressiva. Mas mesmo uma oposição de dimensão menor, como a entre a ideologia anti-alemã e o marxismo da RDA ou do DKP, parece desgastar-se em uma revista como a Konkret. O que ali se prepara, com base em dejectos de cozinha, águas residuais e restos de alimentos do passado ideológico, é um virtualismo do género "SPD-ML" (Franz Schandl); o futuro verde que esta promete assemelha-se ao do conteúdo de um caixote de lixo biológico apinhado de minhocas.

Todos juntos prestam homenagem à ilusão da política, porque não conseguem chegar à conclusão de que a forma de fetiche, não constituindo nem por sombras um "factor económico", ao qual se opusesse o campo da política, "exterior à economia", autónomo e passível de comportar conotações emancipatórias (de modo que a crítica do valor teria de ser rejeitada como suposto "economismo"), retrata a omnipresente constituição do sujeito, a identidade negativa intimamente dividida entre o homo politicus e o homo oeconomicus. A forma da política é apenas a outra face da forma do valor e, por isso, não contém qualquer potencial para transcender o sistema. Por isso, nas condições do esvaziamento completo da lógica do valor, a emancipação social tem de receber uma nova definição, diferente da dos tempos passados, como luta pelo "reconhecimento" na forma do sujeito do processo de valorização. É precisamente a isso que o "marxismo plural" pretende furtar-se para, em vez disso, no terreno da socialização do valor nem sequer posta em causa enquanto conceito sempre regressar à frase feita da "democratização" e a conceitos exteriores de recurso como o do discurso da "sociedade civil" que, todos eles, já há muito que redondamente fracassaram (por exemplo sob a forma da "política" das ONGs).

Neste contexto, os teoremas pós-modernos não merecem crítica, porventura, por de algum modo terem criticado a forma do sujeito e a respectiva legitimação iluminista, mas por não terem ido suficientemente longe nessa crítica. O resultado é uma total regressão, mesmo de grandes partes da esquerda pós-moderna, tal como se exprime nesses confrangedores documentos para o congresso, lançando as bases da compatibilidade com o "marxismo plural" vindo de tempos mais remotos. Pretende-se, deste modo, modernizar este último com "tópicos" como o das "relações entre sexos" (grupo de base DemoPunk, de Frankfurt, convocatória para o congresso publicada na internet) que, no entanto, tal como já acontece desde os anos oitenta no argumento de Haug, permanecem agrilhoados à mesma ontologia burguesa e respectivas limitações ideológicas idealizantes como todos os "tópicos" tradicionais. As "concepções políticas dos anos setenta" são designadas como"anacrónicas" (grupo de base DemoPunk, ibidem) com a única intenção de pintar o vetusto idealismo democrático de cores modernas "pop" e de não confrontar a "pós-política" neoliberal com qualquer anti-política emancipatória para lá da obrigatoriedade da forma democrática, renovando "com uma nova criatividade na procura de soluções globais" a ilusão da política.

Em termos de conteúdo, tudo isto não constitui nada de novo, mas de resto estamos perante um novo surto regressivo da esquerda que não olha a facções nem a grupos e cuja alma de mercadoria armada ao alternativo, perante uma repressão social agudizada e novos movimentos incipientes, tenta incarnar uma vez mais, a fim de vender os seus conceitos e programas antiquados aos praticantes sociais como alimento fresco para o espírito. A pluralidade dos sem-assunto, ao mesmo tempo, faz emergir uma espécie que exige uma modificação da nossa metáfora animal de eleição. Os dinossauros bonzai estão a ficar em minoria no parque jurássico, o que está a dar são os Wolpertinger.

O Wolpertinger é um animal de fábula pouco conhecido a Norte do Danúbio, inventado pelo escritor local bávaro Ludwig Ganghofer; e afinal é ao nível de Ganghofer que a esquerda radical entretanto chegou. Trata-se de uma verdadeira quimera, nas palavras do seu criador, uma "camurça silvestre raposa de veado [Hirschbockbirkfuchsauergams]", que parece pintada de propósito como figura simbólica da marginalidade contemporânea. O facto de Walter Moers, inventor do "kleines Arschloch" (5), ter ultimamente descoberto o Wolpertinger sublinha a importância deste para o espírito do tempo [Zeitgeist] em todos os quadrantes sociais, ou seja, também no seio dos biótopos da fauna de esquerda. Enquanto o dinossauro representa o marxismo do movimento operário puro, duro e fossilista, o Wolpertinger é representativo da unidade quimérica no seio da multiplicidade plural dos marxismos anteriores à crítica do valor, vinculados à ideologia iluminista e à democracia. O "Welt" dos pequenitos, por exemplo, amadureceu para se tornar um Wolpertinger de pleno direito. A primeira coisa a aparecer foi um focinho dado à denúncia anti-alemã e ao belicismo, em todo o corpo brilhava o pêlo da Filosofia iluminista burguesa, após o que não se fez esperar um rabo iridescente pós-moderno; agora cresceram-lhe duas esplendorosas orelhas de burro democráticas, sendo a ilustre cabeça adornada por um penteado nostálgico à moda das campónias alemãs do tempo da outra senhora e, por motivos de ambivalência sexual, tudo é encimado por um pequeno boné de pala à lutador de classes. Alguém seria capaz de passar isso para o papel em forma de desenho?

Para que não venha a haver malentendidos: Bem teria sido possível organizar-se um debate útil entre várias posições, não em último lugar na Jungle World: a propósito da globalização, do antisemitismo etc., fixado no assunto e não em ideologias. A relação da crítica do valor, da dissociação e do trabalho para com a teoria das classes do marxismo tradicional, a qual, afinal, não pode ser despachada com um estalar de dedos, poderia ter sido tematizada sem se sucumbir à mania da delimitação e da exclusão. Teria sido possível submeter as abordagens pós-modernas da crítica do Iluminismo e do sujeito a um exame exaustivo; poderia ter sido testada a capacidade de mediação entre a conceptualidade de Foucault e uma crítica ideológica marxista mais evoluída, ou a integração das investigações materiais de Foucault sobre a disciplinação histórica em uma crítica amplificada das categorias capitalistas.

Esta hipótese de um debate produtivo dotado de polémica literária, mas isento de energia denunciatória, foi levianamente desperdiçada, antes de tudo pela Jungle World, cujo problema não consistiu em não querer ser um órgão de destaque, mas, antes pelo contrário, no facto de se ter tornado isso mesmo após o 11 de Setembro e, em termos redaccionais, nomeadamente um órgão anti-alemão e belicista no sentido lato. O espectro das questões teóricas em aberto no seio da esquerda radical foi entulhado pela atitude identitariamente pró-ocidental e denunciatória. O jogo aos jarretas democráticos é apenas a continuação da mesma tendência com outros meios. Ainda terão de vir vários congressos sobre o Wolpertinger até a fauna se ter engasgado com o seu próprio lixo conceptual.

NOTAS DO TRADUTOR

  1. Alusão ao Turnvater [pai da ginástica] Jahn que, nos finais do século XIX, aproveitou a sua decerto louvável campanha em prol da prática popular do desporto para disseminar as suas convicções políticas retrógradas e antisemitas.
  2. 2. Como Hartz-Papier é conhecido um estudo elaborado por uma comissão de peritos, por encomenda do governo federal alemão de Schröder, sobre as reformas de fundo a empreender na RFA. As medidas propostas vão no já habitual sentido neoliberal.
  3. "Ousar mais democracia" foi um dos motes de Willy Brandt no seu tempo de chanceler da RFA, duramente criticado pelo CDU/CSU, na oposição.
  4. Revista popular de baixa qualidade, com uma tiragem próxima dos 800.000 exemplares.
  5. Banda desenhada gay-alternativa.

Original WOLPERTINGER IM JURASSIC PARK em www.exit-online.org. Divulgado na Internet em fins de Outubro de 2003. Publicado na Revista Streifzüge, 03.12.2003. Tradução de Lumir Nahodil, 22.12.2003

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