EDITORIAL DA REVISTA EXIT! N.º 2

(Publicação Março 2005)

 

Crise em toda a parte: em 2004, os consumidores falharam de novo irresponsavelmente o volume de vendas previsto para o pequeno comércio alemão. Pelo terceiro ano consecutivo houve uma queda da procura no sector privado, fazendo com que os especialistas ainda andem às voltas, a tentar adivinhar onde terá o mercado alemão ido buscar esta nociva "fúria de poupança", ultimamente também sob a forma duma "mania dos descontos" (Spiegel). Pelo menos os "sábios da economia" já conseguiram compreender que mesmo a economia alemã não pode viver só dos resultados das exportações. Deixemo-los continuar a adivinhar, já que eles não nos querem ouvir.

Em crise permanente entrou também, manifestamente, o sistema de ensino alemão, como repetidamente nos dá conta o "choque PISA", já quase todos os anos. O choque reside no facto de a Alemanha ser apenas "medíocre" na comparação internacional, o que jamais devia acontecer, uma vez que se pressupõe que a formação do "capital humano" seja a "base de toda a prosperidade", tornando assim eminente uma ameaça de descida na concorrência global. As possíveis medidas a tomar contra esta insustentável situação estão naturalmente sob reserva de financiamento e, por isso, limitadas: enquanto no Schleswig-Holstein a ministra SPD da presidência, de repente descobriu em campanha eleitoral a "Escola para Todos", como se de outra coisa não se tratasse do que introduzir finalmente o ensino obrigatório para todos, a CDU aposta no bom velho sistema do liceu, com "estímulo ao desempenho" e controlo central. Por fim, a FDP diz que os maus resultados do PISA se devem à diminuição do número de crianças provenientes das famílias com "melhores rendimentos" e prefere criar, neste caso, outro tipo de estímulos.

De facto, pode ser dado como certo que em nenhum outro país similar as chances de ensino estão tão dependentes da proveniência social como na Alemanha; o ordenado do pai é, de longe, o mais elucidativo indicador estatístico de êxito no ensino. Mas alguém quer, seriamente, alterar esta situação? As medidas de poupança no ensino, em todo o caso, visam principalmente aqueles estabelecimentos que ainda poderiam oferecer minimamente uma igualdade de oportunidades (igualdade de armas na concorrência capitalista). Contudo, isso também tem a sua lógica, apesar da lamúria geral sobre o pequeno número de académicos e "profissionais altamente qualificados". Sob a fascinante visão de uma sociedade prestadora de serviços, com comparativamente menos peritos hich-tech, por um lado, e um batalhão de prestadoras de serviços mal remuneradas, por outro, (ver artigo de Frank Rentschler nesta revista), a permeabilidade no sistema de ensino não pode ser desejada. Para a classe média intelectual seria sobretudo desejada uma permeabilidade em sentido descendente. Portanto, as piores notas do PISA ao sistema de ensino alemão voltar-se-ão, como é sobejamente conhecido, contra as suas vítimas, as alunas e alunos que não correspondam suficientemente às exigências, na medida em que os standards serão simplesmente fixados burocraticamente, ao mesmo tempo que as condições básicas necessárias para a sua obtenção serão cada vez piores. A isto chama-se "formação de elites". Onde tudo vai por água abaixo, devem ser mantidos de pé pelo menos certos "valores", não importa quão difusos. E se as crianças e jovens sortudos não se quiserem adaptar a esta realidade, aqui na forma de um novo/velho padrão de educação, tanto pior para eles.

Também uma crítica, que equivocadamente a si se tem por radical, cede ao espírito do tempo, na digestão conservadora da crise, com uma nova consciência dos velhos valores. A esse espírito obedece Franz Schandl, como se isso fosse a coisa mais natural, na sua composição "Fan und Führer", em grande parte constituída por remendos de velhos fragmentos de textos, repisada em vinte e nove páginas e editada na magra revista Krisis nº 28. O que todos os pedagogos têm na boca, também para ele é bem conhecido (p. 40): "Televisão, Vídeo, DVD, Internet, Telemóveis, Gameboy" são culpados, porque desviam as crianças da leitura e do debate de outros problemas, cujo domínio, afinal, nos tornou a nós, mais velhos, naquilo que somos hoje. Consequentemente, tem que se afastar a filha da televisão e levá-la para "actividade e criatividade", sob a "frequente cena das cenas: sai da televisão e pega no instrumento musical!", portanto, manifestamente, mesmo contra a sua vontade. O prezado autor só pode esperar que a sua intervenção não se vire, em qualquer altura, contra ele: já os de 68 sabiam que, nas relações de força em família, até o simples destruir de um violoncelo pode eventualmente transformar-se num acto libertário.

Embaraçoso, também para nós, é se, por qualquer motivo, um tal molho cultural burguês for misturado com uns pretensos "ingredientes de crítica do valor". A narcísica simulação de crítica de Schandl, cujo carácter Günter Rother detalhadamente salienta na sua análise, publicada há dias, "Escrita de esquerda, pensamento de direita: um confronto analítico ao ensaio ‘Fan und Führer’ de Franz Schandl" (ver www.exit-online.org), é não só um defeito da nova krisis, mas revela-se, a uma visão mais apurada, como um problema mal resolvido vindo já da velha. Para que estes erros primordiais não se repitam no novo projecto EXIT!, eles têm que ser superados num processo de autocrítica. Sem se entrar numa discussão que afecte a estrutura interna do projecto, importa no essencial reter: as contradições internas da sociedade da mercadoria, pelas quais ela mais cedo ou mais tarde perecerá, foram sempre um ponto de partida da crítica radical. Para os/as críticos/as, porém, isto não pode significar bater-se por um ou outro lado dessa contradição, como Schandl e outros fazem. Ambos os lados, no caso concreto tanto os "massmedia" como os "clássicos", que visam a educação para o desenvolvimento do "capital humano", estão na forma de mercadoria. Daí que nenhum deles se deixa tornar imediatamente emancipatório. Na prática social, em que somos obrigados a movimentar-nos, nem sempre se podem evitar decisões para pequenos males. Em contrapartida, esta prática não pode ser tomada como padrão para a crítica que vai às raízes, mas tem, isso sim, de recusar a sua decisão compulsiva imanente, caso contrário tornar-se-ia impossível.

Por causa disso é que Ernst Lohoff se afasta também de início da possibilidade de uma crítica radical, no seu texto "Romantismo Social Negativo" (Jungle World 40/2004), quando, logo no subtítulo, sustenta: "Para alguns na esquerda é mais importante a crítica ao movimento do que a crítica ao programa Hartz IV", como se a crítica de ambos os temas fosse de todo impossível. Contudo, ele ainda refere um critério importante, que todavia não devia ficar como único (ver artigo de Roswitha Scholz nesta revista). Escreve ele: "Na era da crise da sociedade de trabalho basta um teste de tornassol para dissociar os protestos sociais emancipadores daqueles que são marcha-atrás: a questão do trabalho. A oposição começa com o desrespeito destes consagrados princípios básicos da sociedade da mercadoria. Crítica social que aceita o primado do trabalho não existe". Todavia, logo de seguida, ele esqueceu-se de aplicar também este critério aos reais protestos Anti-Hartz. A sua referência positiva aos protestos consiste única e simplesmente em que eles "se manifestam contra aquele que é o maior programa de criação de pobreza alguma vez existente na história da Alemanha Federal", o que nada tem a ver com teste de tornassol por si escolhido. Em contrapartida, Frank Rentschler no seu artigo " O estado tem que obrigar os seus cidadãos a trabalhar" (Incipito 14/2004, ver tb. www.exit-online.org), demonstra que "O denominador comum de Hartz IV e Protestos Anti-Hartz" (assim é o subtítulo) consiste precisamente na aceitação do primado do trabalho, incluindo a agressiva exclusão a ele inerente dos sem capacidade ou vontade para o trabalho: "Assumindo o Estado a responsabilidade para que todo o cidadão possa usufruir do seu direito ao trabalho, providenciando pleno emprego para todos, tem de se lhe conceder o direito de obrigar a trabalhar os cidadãos que vivem da sociedade, mas que a ela se recusam a dar a sua contribuição". Esta citação não é do Ministro da Economia Clemente, mas de Oskar Lafontaine, muito aplaudido na manifestação Anti-Hartz. Como mostra a morte logo à nascença do Partido pelo "Trabalho & Justiça Social", com estes pressupostos nem sequer as imanentes lutas de interesses se deixam conduzir.

"Só o que é útil merece viver". O princípio da auto-tritutração utilitarista de Bentham espalha as suas metástases, mesmo naqueles que jamais terão uma chance de "utilidade". Assim se agrava o discurso em torno dos idosos. A baronesa Warnock, segundo o "Sunday Times" de 12.12.04 "líder inglesa da ética médica"(!), sugeriu nesse mesmo jornal que os debilitados e os idosos deveriam considerar o suicídio, para não se tornarem num fardo financeiro para as famílias e a sociedade ("the frail and elderly should consider suicide to stop them becoming a financial burden on their families and society"). Esta senhora tem 80 anos e provavelmente em breve terá de passar das suas palavras ao acto. É de recear que ela nisso não fique só.

***

Os "Loucos da Exit!" (Ernst Lohoff) apresentam aqui o nº 2 da sua revista. A grande receptividade experimentada pela primeira não se deve apenas aos/às receptores/as, mas também às/aos "novas/os" autoras e autores que connosco querem colaborar. Ficou claro que é possível alargar o círculo dos participantes activos, sem degenerações de forma teórica e sem cair no habitual populismo dos movimentos.

Com o texto "Deus em Sociedade com a Sociedade" Jörg Ulrich volta à questão já anteriormente levantada por Walter Benjamin, em 1921, mas já há muito esquecida na discussão crítica do valor. O artigo trata das mudanças históricas do conceito de deus desde a antiguidade até ao presente. Teoricamente, no enquadramento do fragmento de Benjamin "O Capitalismo como Religião", é mostrada a moderna união de imanência e transcendência, no "sujeito-automático" do movimento do capital e fundamentado porque, com o valor que se valoriza, um deus começa o seu reinado, que realmente se põe em movimento através do mundo e, como negação e auto-afirmação de si mesmo, põe em execução um e mesmo movimento, que leva até às últimas consequências a "diferença ontológica" da metafísica pré-moderna, na medida em que ele (valor), como "ser", faz progressivamente igual ao seu conceito o-que-está-sendo (o mundo real), arrastando-o, com isso, para o fundo vazio da sua abstracta falta de determinação. Por isso a crítica da economia política deveria ser sempre, segundo a tese de Ulrich, hoje mais do que nunca, formulada também como uma crítica da metafísica e da religião, para demonstrar que a sociedade moderna, sob a forma da sua própria lógica intrínseca de movimento, produziu um deus no verdadeiro sentido da palavra, que na sua caminhada através do mundo desenvolveu uma poderosa força destrutiva e que, ao contrário de alguns seus antecessores históricos, não tem dó nem piedade, antes, numa campanha de aniquilamento sem igual, transformou a prometida salvação no seu contrário.

Petra Haarmann abre o tema principal deste número da revista: Digestão da Crise e Ideologias da Crise com o texto "O Direito do Cidadão à Tortura". Não se trata aqui, de modo algum, de um simples exagero provocatório das denúncias já quotidianas sobre torturas, inclusive as das prisões e zonas de protecção militar instaladas e controladas pelos governos democráticos ocidentais. Neste artigo, mais do que isso, trata-se da controvérsia jurídica, que já desde 1992 está a ser levada a cabo nas universidades alemãs, com toda a gravidade professoral, estendendo-se até às licenciaturas. Os conceitos são: a "dignidade humana", as leis de emergência do direito da polícia e da ordem pública, assim como a razão kantiana na declaração do "Jus necessitatis" (Coacção sem Direito). Haarmann começa por descrever a aplicação histórica da tortura e martírio na Europa Ocidental desde o princípio da Idade Média, e contextualiza-a com a interpretação nessa época de razão e capacidade de conhecimento humano, os quais até ao limiar da Modernidade não se podiam imaginar sem o princípio da identificação "divinal". Apenas a razão nominalista, que desde a crise de finais da Idade Média até hoje se considera a única verdade válida de identificação do transcendente (atrevimento este que foi até à estigmatização da magia do diabo, ficando e continuando a ficar ela própria, contudo, profundamente mágica, na medida em que prega a renúncia à "magia" como meio mágico de alcançar a redenção e a transcendência) pôde gerar aquela forma vazia que hoje, quer na forma de um sujeito abstracto universal, quer na forma de uma universalidade abstracta, combate por toda a parte o caos (vulgo "mal") que já não se inclua no ídolo. A tortura quotidiana, hoje como suporte de base ocidental da razão (de novo?), de modo algum se revela como uma recaída no processo de decisão penal proto-moderno, mas está sim na continuidade de uma racionalidade que, movida pelo medo mágico, brande o único meio para si seguro de poder: a espada.

No seu ensaio "O Sexo do Estado Promotor de Actividade" Frank Rentschler aprofunda, sob o ponto de vista da crítica do valor-dissociação, a reflexão já feita na última revista EXIT!. A partir do facto então analisado de que as Reformas-Hartz dão origem a sujeitos destituídos de direito, dos quais, os ainda capazes, são absorvidos pelo Estado "promotor de actividade" como prestadores baratos de serviços, ele fala de uma sociedade prestadora de serviços. Por um lado baseado em Holger Schatz, que vê uma "refeudalização no modo da socialização do trabalho", mas, por outro, contrariando esta tese, ele sublinha que ela (a socialização) é o modo pelo qual, presentemente, "O Sexo do Capitalismo" (Roswitha Scholz) é constituído. O trabalho torna-se serviço e este consiste numa permanente disponibilidade para o mercado (ou, por inerência, para os clientes), mas que, no entanto, se fracciona numa parte "masculina" e numa "feminina". No centro da análise estão os meios de subjectivação de géneros e respectivas formas de digestão da crise, que correspondem a diferentes estratégias de promoção de actividade por parte do Estado. De uma análise discursiva de exemplos relativos à sociedade prestadora de serviços pode revelar-se a visão que está subjacente a uma sociedade que é composta por "yetties" (Young, entrepeneural, tech-based) e por uma efémera força de prestadores/as de serviços. Rentschler relaciona este discurso com uma nova forma simbólica de géneros, a qual ele, juntamente com Roswitha Scholz, entende como um "modelo uni-sexo", que substitui a velha ordem polarizada (diferença sexual) e torna totalitário o sujeito masculino da concorrência como indivíduo autónomo. Nas novas formas simbólicas o conceito de diferença já não remete para um outro sexo, mas sim para um sujeito da concorrência menos bem sucedido. A inferioridade daí advinda não é, dentro desta lógica, de criticar, porque só ela legitima o êxito da posição do indivíduo no mercado. Rentschler demonstra que o velho modelo de géneros que o Estado Providência criava, era, sob este ponto de vista, menos rígido. Com a reconversão da velha filosofia do Estado Social na filosofia do novo centro e seu inerente desenvolvimento de um "modelo uni-sexo", surge um backlash [contra golpe, em inglês no original], que tem como resultado uma intensificação da hierarquia entre sexos. A par da transformação da forma simbólica, Rentschler analisou outros factores e mostrou que a mudança atingiu as mulheres de diversas formas, contudo o movimento feminino não sabe lidar adequadamente com a situação. Mais do que isso, está ele próprio envolvido na imposição do "modelo uni-sexo", implicando esta atitude a sua própria desintegração. E tal acontece após não ter conseguido impor os seus ideais emancipatórios para a superação da velha ordem sexual.

Da mesma forma que a crise dissolve a capacidade de reprodução da "camada média", que até agora se considerava em segurança, também a esquerda é tomada pelos padrões de elaboração ideológica, que pelos vistos forçosamente a ela estão ligados. Roswitha Scholz demonstra no seu texto "Maio Chegou" que a "crítica do valor" surgida ao longo destes anos também disso não está a salvo. Os conceitos fundamentais da crítica do valor tiveram que ser implementados na esquerda a custo só no princípio dos anos noventa, por isso é que hoje se põe o problema da sua banalização, não só por uma recepção superficial nas diversas "cenas" da esquerda, como também pelas próprias tendências regressivas numa parte do anterior círculo da crítica do valor. Neste cenário, representado não apenas pelo resto da "Krisis", recorre-se agora à "consternação" e a um "quotidiano" amplamente acrítico, bem como a uma ligação populista de esquerda com um mais vasto público do movimento. Há, no entanto, um perigo de recuperação por parte da direita e de posições conservadoras, se porventura, em caso de agravamento da crise, for esquecida a constituição da subjectividade da concorrência burguesa-patriarcal. Como fundamento desta crítica ideológica a uma versão banalizada da própria teoria crítica do valor, designa Scholz o pano de fundo social comum de todas as tendências correspondentes: nomeadamente, "a transformação dos homens em donas-de-casa" (Claudia von Werlhof), incluindo os de círculos teóricos de esquerda, dos ‘media’, etc., e "a queda da classe média" (Barbara Ehrenreich). Uma "crítica de trabalho" reducionista, bem como um conceito androcêntrico reduzido de "realidade social" têm que dar o mote da crítica do valor na colectânea "Dead Men Working"; racismo, anti-semitismo e sexismo são, nos novos hábitos, outra vez degradados a contradições secundárias, em vez de serem compreendidos no seu entretecimento com as disparidades económicas, relação entre sexos e construção da "raça", como faz a crítica do valor-dissociação, no direito que a si própria se reserva.

Na crise do capitalismo de casino, também o marxismo tradicional académico, que faz sucesso outra vez como produtor de ideologia para os movimentos sociais, fareja de novo a brisa matinal. Carsten Weber, tomando como exemplo o discípulo de Haug, Alexander Gallas, mostra na sua polémica "Um Problema de Particularidade Positivista" como uma velha clique de notáveis de esquerda, firmemente ancorada em determinadas universidades, alimenta os seus protegidos com graus académicos, mesmo que as respectivas dissertações – aqui uma tese de mestrado sob o título "Marx como Monista? Ensaio de uma Crítica da Crítica do Valor" – não possuam sequer os mais elementares standards científicos. Sob a auréola da consagração universitária, este tipo de nobilitados medíocres exerce grande influência sobre os movimentos entorpecidos nas desbotadas categorias do pensamento da luta de classes, onde o desenvolvimento da teoria crítica social é publicamente recusado, ao mesmo tempo que se lamuria os erros próprios cometidos. Neste ponto de rotura cresce junto o que junto pertence, porque o marxismo tradicional académico desde sempre se predispôs a colocar ao seu serviço, quais criadas, as seitas de culto do proletariado, inimigas da teoria e da inteligência, tanto mais que, ele próprio, nas suas análises sempre subjectivas, nunca sequer foi capaz de chegar ao nível das manifestações superficiais da sociedade capitalista. Weber mostra-nos na sua análise como esta impotência teórica desagua em aporias insolúveis, que Gallas procurou disfarçar, com a ajuda de um grande arsenal de deturpações rabulísticas e projectivas, ao defender-se da crítica do valor.

Na segunda parte do estudo fundamental começado na EXIT! nº 1, "A Substância do Capital", Robert Kurz ocupa-se com o problema da quantidade de trabalho abstracto como fundamento da teoria da crise. Inicialmente esta análise, em continuação do desenvolvimento das abordagens dispersas sobre a obra marxiana, deveria já desenvolver a sistematização de uma teoria positiva da crise, baseada nos conceitos de mais-valia absoluta e relativa, composição orgânica do capital e relação entre taxa de lucro e massa de mais-valia. Constatou-se todavia que os aspectos histórico-teóricos e crítico-ideológicos do problema da quantidade e da crise, por si só ocupam um espaço tal, que a própria apresentação da lógica de crise imanente só pode continuar na EXIT! nº 3 (a necessária quarta parte que esta situação originou, abordará o contexto sistema de crédito / capital fictício / virtualismo pós-moderno, etc.). Neste número são minuciosamente tratados os temas do debate marxista histórico sobre a teoria da crise, principalmente a controvérsia em torno das teorias do colapso de Rosa Luxemburg e Henryk Grossmann. Fica demonstrado que o marxismo tradicional, devido à sua ontologia do trabalho, no seu todo não foi capaz de absorver elementos decisivos da teoria da crise de Marx. Como a definição transhistórica da abstracção do trabalho falhou a qualidade específica deste como substância do capital, teve forçosamente de falhar também a questão central da problemática da crise como "dessubstancialização" ou desvalorização do valor. O resultado foi uma até hoje duradoura banal subjectivação das categorias politico-económicas, sobretudo pelo "marxismo ocidental". Em geral, este fracasso teórico na estrutura-sujeito-objecto da moderna relação de fetiche constitui a história secreta dos debates marxistas sobre a crise e o colapso, que deste modo teve de desvanecer-se na ilusão de um comando político das inultrapassadas categorias do fetichismo. Completamente às escuras e ideologicamente "abandonado" fica o problema da quantidade do trabalho abstracto nas mais recentes teorias, ligadas a I. I. Rubin, na medida em que elas querem desqualificar como "fisiológico-naturalista" o próprio conceito de substância de Marx. A polémica controvérsia sobre isso, juntamente com as teorias de Moishe Postone e principalmente de Michael Heinrich, fecham esta segunda parte do estudo.

Com o seu contributo "A Teologia do Sujeito Automático" reage Jörg Ulrich ao ensaio "A Realidade do Sujeito Automático" de Christian Höner saído na EXIT! nº 1. Aceitando no fundamental as teses de Höner, ele critica principalmente a sua rígida diferenciação entre "metafísica pura" e metafísica real. A segunda, conforme tese contrária, mais não será que uma metamorfose da primeira. O reconhecimento desta realidade não leva de forma alguma a um desconhecimento do fetichismo da mercadoria, mas, pelo contrário, ao reconhecimento do capital como uma religião da imanência. Para além disto, há ainda a questão da falsa consciência e a afirmação de que isto não reflectirá mal a objectividade realmente metafísica da sociedade, mas que, pelo contrário, nem sequer a reflecte. Ulrich argumenta aqui contra a para ele fatalista posição impressionante de Höner, na medida em que fundamenta a reconhecibilidade fundamental do mecanismo fetichista da inversão.

A revista termina com três comentários de Udo Winkel. Na sua glosa "Continuar a remendar" ele foca, a propósito da 32ª Jornada dos Sociólogos em München (Outubro 2004), a desolada situação actual dos sociólogos, como momento e expressão da crise da sociedade civil. Continuar a remendar como até agora (com a teoria do sistema), microsociologia, folhetinismo sociológico e da decadência compõem o quadro; não se vislumbram novas perspectivas. O texto "A propósito da nova publicação dos primeiros escritos de Marx" refere-se à já terceira edição dos mesmos na Kröner Verlag (1932, 1953 e 2004). Ela oferece a possibilidade de um novo confronto com as conceptualidades da obra tardia de Max disponível. A recepção até agora ocorrida da crítica de Hegel e do desenvolvimento das dimensões da crítica à sociedade burguesa assinala as limitações do marxismo tradicional. Por último o ensaio "A propósito da nova edição de ‘A ética protestante e o espírito do capitalismo’ de Max Weber", debruça-se sobre um clássico, que ganhou nova actualidade com a perspectiva apresentada neste caderno (e não só) do capitalismo como religião.

***

Como já vem sendo hábito, deixamos aqui a informação de duas novas publicações do nosso círculo: O livro de Jörg Ulrich "Máscaras e Metamorfoses do Sagrado", da editora Verlag Ulmer Manuscript, saído já em Outubro de 2004, no qual são desenvolvidas outras facetas do tema "O capitalismo como religião" já por ele aqui abordado. De Roswihta Scholz sai em Maio de 2005, na Editora Horlemann-Verlag, o livro "Diferenças da crise – crise das diferenças. A nova crítica da sociedade na era global e a relação de ‘raça’, classe, género e individualização pós-moderna". Tema central do livro é a relação pertinente entre, por um lado, as diferenças "étnicas", sociais, de género ou individuais e, por outro, uma crítica social que, de forma diferente, tem em vista novamente o todo social mundial.

Claus Peter Ortlieb, pela redacção da Exit! Deutsch

Fevereiro de 2005

Tradução: Virgínia Freitas / Boaventura Antunes

http://obeco.planetaclix.pt/

http://www.exit-online.org/