EDITORIAL da REVISTA EXIT nº 1

(saída: Agosto de 2004)

Este é o primeiro número de uma nova revista teórica. EXIT é o produto duma das habituais cisões que há muito fazem parte dos maus hábitos da esquerda. Agora também a "KRISIS" segue esse caminho. Não existe mais, pelo menos não com sua anterior composição de autoras e autores, nem tampouco como revista da editora Horlemann. A forma do direito burguesa, logo ela, tão mal afamada, foi chamada a decidir o afastamento de Robert Kurz e Roswitha Scholz da redação da Krisis, por meio de expedientes administrativos, seguindo-se o da maioria de seus membros.

Desde então, levanta-se frequentemente a pergunta de quais teriam sido os motivos – nada óbvios – de um tal rompimento. Não existe uma resposta curta para isso e uma longa não cabe aqui. A explicação necessária para dar conta de um conflito interno que já dura doze anos tomaria provavelmente todo o espaço desta primeira edição da EXIT, o que seria um desperdício. Afinal, há temas mais importantes a tratar, como se pode ver. Remetemos as leitoras e leitores interessados à nossa tentativa de esclarecimento publicado na Internet em www.exit-online.org/html/aktuelles.php e especialmente à exposição minuciosa da gênese desse rompimento: A revolução das boas maneiras de Robert Kurz (1).

Não desejámos nem provocámos a cisão, e também (já) não sofremos particularmente com ela. Ao contrário do que talvez previssem aqueles que queriam se ver livres de nós, e mais rápido do que também esperávamos, o projeto EXIT, de crítica da dissociação do valor, foi posto a caminho:

Informações mais precisas sobre as possibilidades de participação ativa ou de apoio ao projeto são encontradas nos endereços eletrônicos indicados neste caderno.

Mudanças pessoais trazem também consigo, quase forçosamente, diferentes acentuações. Saídos do processo de construção teórica da antiga "Krisis", teremos tanto maior empenho em romper de vez as cascas de ovo do objetivismo lógico-dedutivo a ela ligado e avançar na crítica à forma de sujeito do homem-branco-ocidental, precisamente nos tempos atuais de uma ideologia de hurra! "pró-ocidental", que vai até ao interior da esquerda. Em prosseguimento à fundamentação teórica de uma crítica do "trabalho abstrato" enquanto substância da relação capitalista, queremos estabelecer um relacionamento crítico-solidário com os movimentos sociais nascentes, e não "populista de esquerda", a serviço do pensamento anti-semita. Alegramo-nos com todos que nos acompanham neste caminho pela ação ou pelo estímulo.

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Será Robert Kurz um geselliano? Segundo Elmar Altvater, teríamos que enfrentar seriamente esta questão (e preparar a próxima cisão?). Em seu contributo Um outro mundo com que dinheiro? ao recém lançado Attac-Reader sobre Crítica da globalização e anti-semitismo (2004), insinua ele essa afinidade espiritual (p. 32): "Soa como se Robert Kurz, na questão da abolição da renda fundiária, estivesse de acordo com o movimento camponês". O movimento camponês, do qual aqui se fala, é parte da utopia monetária pequeno-burguesa, carregada de anti-semitismo, de Silvio Gesell, que não pretende abolir o capital, o valor ou a mais valia, mas apenas os juros e rendas, incluindo a renda da terra. Tudo isto foi apresentado e criticamente analisado por Robert Kurz em Economia política do anti-semitismo, Krisis 16/17, 1995, 177-218. Kurz tinha feito notar, entretanto, que a questão da apropriação da terra pode assumir importância noutro contexto, para lá de uma má utopia do dinheiro: nomeadamente no contexto de um movimento social que vise desacoplar-se da forma mercadoria, mas não pode viver apenas de ar, de amor e de crítica (e nem tampouco de software livre) (2). A seguirmos a generalização empreendida por Altvater, então seria geselliano não apenas Kurz, mas também qualquer praxis anti-capitalista implicando a questão dos recursos materiais. Mas não é isso que ele quer dizer, pois naturalmente a atenção à questão da terra seria de importância central no quadro de uma "economia solidária", como se afirma umas linhas mais adiante. Em que ficamos?

Salta aos olhos, até de um leitor que não conheça o citado texto de Kurz, que o ataque de Altvater é desprovido de qualquer mediação e destoa completamente do restante de sua exposição. Altvater parece de resto seguir esse texto, ainda que substitua com prazer a análise por notas biográficas como, por exemplo, sobre gesellianos que foram nazistas até 1945 e depois se converteram ao ordo-liberalismo de um Ludwig Erhard. Para um texto introdutório, talvez este modo de exposição passe. Contudo, quem procurar nexos não apenas biográficos, mas também teóricos, fará melhor em ater-se ao original de Kurz.

A deslealdade intelectual de Altvater, aqui constatada, não vem por acaso. Faz parte dum subtexto voltado contra a crítica do valor, presente em pelo menos 5 dos 7 artigos do ATTAC-Reader (constitui uma excepção que vale a pena ler a discussão entre Heinz Düx e Klaus Meschkat sobre as atitudes anti-semitas na esquerda alemã do pós-guerra). Ao que tudo indica, Attac oferece ao marxismo tradicional académico a chance de recuperar a antiga importância, perdida nas últimas décadas, dando-lhe o ensejo de agarrar-se a um movimento social que ele considera em ascensão, um objetivo para o qual o "ideário da crítica do valor", entrementes também aí disseminado, representa um estorvo a ser afastado. Pretende-se fazer isso, porém, num Reader que tem como tema, na verdade, o anti-semitismo, o que não facilita nem um pouco a tarefa. Os outros não se desembaraçam dela de forma tão desajeitada como Altvater. O método usado pela maioria consiste mais em despachar a crítica do valor, ou o que se toma por ela, para um texto indicado, não incluído no Reader, o qual a teria refutado de uma vez por todas, ou quase isso.

Tal texto é a tese de mestrado do discípulo de Haug, Alexander Gallas, com o título Marx como monista? Ensaio de uma Crítica da Crítica do Valor (2003). Contudo, a crítica do valor criticada por Gallas é apenas uma construção montada por ele mesmo a partir de determinadas peças escolhidas, como se vê logo com uma espreitadela à bibliografia: Assim, por exemplo, o tema da dissociação do valor não aparece lá nem ao longo do texto. Convém lembrar: "A contradição básica da socialização pelo valor de matéria (conteúdo, natureza) e forma (valor abstracto) possui uma determinação especificamente sexual. Todo o conteúdo sensível que não é absorvido na forma abstracta do valor, a despeito de permanecer como pressuposto da reprodução social, é delegado à mulher" (‘Teorema da Dissociação’, Roswitha Scholz, O Valor é o Homem, Krisis 12, 1992, pag. 23). Decorre desta afirmação, desde logo, que tem de haver algo que não se encaixa no valor, mas pertence igualmente à reprodução social. Reconhecer esta constatação como elemento essencial da crítica do valor, que afinal, passados 12 anos, já não é assim tão nova, jogaria por terra, de saída, o questionamento da obra de Gallas, baseado no entendimento da crítica do valor como uma "concepção monista da socialização capitalista". Tal entendimento fundamenta-se no argumento de que a crítica do valor lança a acusação de que "o conceito supra-histórico ‘tradicional’ de trabalho remonta à assunção inconsciente de formas de pensamento socialmente estabelecidas, que assim naturalizaram o que é histórico. Deve ser explicado, então, que as formulações tradicionais conceberam a constituição da sociedade pelo trabalho como uma constante antropológica e, por isso, não sujeita à crítica." (pag. 13) Até aqui tudo bem, abstraindo-se da gramática. Mas então vem o curto-circuito: "Estas considerações remetem-nos à problemática da crítica do valor. O seu discurso está centrado no axioma de uma concepção monista da socialização capitalista; os processos sociais são interpretados como formas de movimento de um único princípio estrutural – o trabalho." Ou seja: quem considera o trabalho não um dado da natureza, mas historicamente específico, tem de considerá-lo um princípio estrutural a partir do qual se explica tudo o mais. Para dizê-lo com os termos repetida e alegremente usados por Gallas: esta derivação não convence.

"Põe-se-nos a questão de que consequências tem a transferência de figuras do pensamento hegeliano para a crítica da economia política. É claro que se decide nesta questão se tem êxito a elaboração de uma compreensão monista do objeto. Os críticos do valor, entretanto, não fornecem senão escassas indicações sobre este tema" (Gallas, pag. 21), o que a bem dizer não deve espantar ninguém, pois tal não é nosso, mas apenas do próprio Gallas. Naturalmente alegramo-nos por poder ajudar alguém a conseguir as honras académicas. E talvez seja simplesmente exigir demasiado ao marxismo académico tradicional, pedir-lhe que apreenda um processo de elaboração teórica em movimento, como é o caso da crítica da dissociação do valor, de outra maneira que com suas próprias categorias fossilizadas, pertencentes a uma época capitalista passada, mesmo que tal tentativa tenha de fracassar.

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Roswitha Scholz, no seu artigo em forma de tese A Nova Crítica Social e o Dilema das Diferenças, defronta-se com o verdadeiro tema do Attac-Reader, a saber, o já longo debate da esquerda sobre racismo, anti-semitismo, sexo e classe, no contexto da globalização e dos novos movimento sociais, que entrementes alcança também os mídia burgueses. Trata-se aí tanto da abordagem material das disparidades económicas através de outsourcing, sub-contratação, sector informal, etc., como também das tendências pós-modernas para o individualismo a isso ligadas. Ao mesmo tempo procura-se expor a relação altamente tensa das "diferenças" (étnicas, sociais, de género, etc.) com uma crítica social que continua a insistir numa perspectiva totalizante. Neste contexto, são esclarecidas mais detalhadamente algumas consequências da teoria da dissociação para a crítica do conhecimento, nomeadamente a relação entre a universalidade do valor-dissociação como princípio geral e a particularidade de cada situação (entre outras, as especificidades culturais e regionais). O particular não deve continuar a ser "deduzido" do geral, antes deve manter a sua importância autónoma ao lado da relação universal. Este procedimento permite à reflexão crítica uma melhor compreensão de relações complexas do que uma lógica dedutiva clássica universalista.

O foco temático deste número, Para uma nova crítica da economia política, começa com a primeira parte de um longo estudo de Robert Kurz, A Substância do Capital, que pretende reelaborar criticamente o conceito de "trabalho abstracto" da crítica marxiana da economia política. Numa breve introdução sobre o conteúdo do conceito de substância – em demarcação duma auto-avaliação da modernidade como "época pós-metafísica" – trata-se, antes de mais nada, da dimensão filosófica do problema, pela caracterização da relação capitalista como "metafísica real" (fetichismo). De seguida é analisada a qualidade (negativa) do "trabalho abstracto" em confrontação com a ontologia do trabalho do marxismo tradicional. O que é, afinal, "abstracto" nesta relação com a sociedade e com a natureza, até que ponto se trata de uma "abstracção real", de praxis destruidora e auto-destruidora?. Estreitamente ligado com este tema está o conceito moderno, abstracto, de tempo , assim como a dinâmica do desenvolvimento capitalista. O texto aborda extensivamente a obra de Moishe Postone agora disponível em tradução alemã Tempo trabalho e dominação social. (3) Na segunda parte do estudo, prevista para o próximo número da EXIT, será então exposto o problema da quantidade do "trabalho abstracto" como fundamento da teoria da crise.

O ensaio A Realidade do Sujeito Automático, de Christian Höner, aborda uma certa recepção recente de Marx que, demarcando-se da crítica do valor, quer "salvar" o marxismo tradicional através duma nova interpretação filológica. Exemplar para o caso é o texto de Nadja Rakowitz, da Sociedade Marx (Frankfurt), que procura rebaixar o conceito marxiano do capital como "sujeito automático", acolhido pela crítica do valor, a um fenómeno limitado à esfera da circulação, alegadamente usado por Marx de maneira apenas provisória na exposição e depois abandonado. Na refutação deste ponto de vista é evidenciado o conceito de "sujeito automático" e, em consequência, o de fetichismo, como relação social real, enquanto para o marxismo tradicional, como para Rakowitz, se trata apenas de fenómenos ideológicos, no fundo "irreais", secundários em relação à supostamente tangível "luta de classes".

Nos Estados Unidos desenvolve-se um animado debate sobre a teoria da crise, desde o Wall Street Journal até às revistas de esquerda, em surpreendente contraste com a esquerda alemã, por exemplo. O detonador foi uma publicação do teórico Robert Brenner da Califórnia, saída em 1998 na Left Review. O comentário de Petra Haarmann A Oeste Nada de Novo aborda a teoria de Brenner e mostra que este ensaio procura certamente libertar-se do pensamento reducionista do marxismo tradicional, mas continua preso às principais categorias da economia política e até as ontologiza, enquanto a maioria das recensões de esquerda criticam-no apenas com conceitos tradicionais da luta de classes. O debate nos Estados Unidos retoma de facto a discussão sobre uma teoria da crise marxiana, mas não se encaminha para uma fundamentação sobre a teoria do valor e/ou a crítica do valor.

O dito popular O rei vai nú vale também para a assim chamada economia política neo-clássica, presentemente dominante, e base teórica da política económico-social neoliberal, entretanto adoptada por todos os partidos. A colaboração de Claus Peter Ortlieb Fábulas do Mercado mostra que nos manuais em uso da nova "religião mundial" não apenas são apresentadas hipóteses absurdas, idealizantes, e cometidos erros lógicos de arrepiar os cabelos, mas também que algo vai mal com o pretensamente sólido método baseado na alta matemática e nas ciências naturais. A eficácia do paradigma neo-clássico, que não conhece qualquer conceito de crise, mas apenas um dogma do equilíbrio, mantido de pé a ferro e fogo, e para o qual as "perturbações" só podem resultar de "comportamentos anormais" extra-econômicos, revela-se assim como pura ideologia.

Sob a designação de "Copyleft" propaga-se actualmente no contexto do Sistema-Econux o "princípio" de uma utilização e divulgação livre e não remunerada de textos, que há-de abrir "uma portinha para um novo mundo", no qual "já não vigoram as regras da sociedade da mercadoria". O artigo de Petra Haarmann Copyright e Copyleft põe à prova esta afirmação e chega à conclusão de que se trata apenas duma falsificação de etiqueta. Em primeiro lugar, a abstrata vinculação de princípios do "copyleft" leva à possibilidade de que os publicistas que a aceitem sejam gratuitamente "usufruídos" em toda e qualquer instância. Sob as relações, em tudo o mais totalmente inalteradas, da sociedade da mercadoria, significa isso, na prática, que mais ninguém poderia custear o seu sustento através da produção de textos e que uma existência como intelectual ou artista só seria possível no plano do lazer. Em segundo lugar, esta pretensa subversão do direito de autor está ela própria na forma do direito e assim mostra involuntariamente que não transcende a forma do valor. Este texto de Petra Haarmann deve constituir o início de uma reflexão sobre as tendências de um neo-utopismo pequeno-burguês, que vem a somar-se aos restos do marxismo tradicional como mais um produto regressivo do declínio histórico da esquerda. O conceito de "apropriação" ameaça assim cair no padrão de pensamento duma falsa imediaticidade e ser acrescido de elementos duma ideologia influenciada pela filosofia da vida (Lebensphilosophie) e pelo Vitalismo. Particularmente pernicioso será se tais tendências invocam precisamente a crítica do valor-dissociação. EXIT opor-se-á decididamente a tal instrumentalização e vulgarização romântico-populista das ideias da crítica do valor.

A rubrica Crítica Social estará também representada, com uma colaboração, em todos os próximos números da EXIT, se possível. Tratar-se-á aqui duma discussão crítica sobre a administração do trabalho, administração da crise, burocracia dos "estrangeiros", etc., que também não deixará passar em claro a pseudo-crítica social populista racista e anti-semita. Neste número, a contribuição de Frank Rentschler A Coação à Autosubmissão trata das novas formas da administração do trabalho no contexto do Relatório Hartz e/ou da Agenda 2010 e seu pano de fundo ideológico. Aí é analisado criticamente, por exemplo, o "acompanhamento persecutório" dos desempregados e a reestruturação (de "instituto" para "agência") das instâncias governamentais de administração do trabalho, em parte efectuada, em parte ainda em plano.

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Anunciamos ainda uma próxima publicação do nosso círculo: no Outono sai uma selecção de textos de Robert Kurz sob o título Razão Sangrenta. Aí serão reunidos os principais textos de Crítica do Iluminismo, tal como se desenvolveram a partir da crítica do valor e da dissociação do valor. Tanto os mais recentes, objeto de controvérsia no ex-círculo da Krisis a partir dos três últimos números da revista, como também o texto de 1993 Dominação sem sujeito entretanto esgotado.

Claus Peter Ortlieb pela Redacção da EXIT

Julho de 2004

Notas do tradutor:

(1) Tradução prevista (para breve?) nesta página.

(2) Referência ao texto A Economia da Terra.

(3) Time labor and social domination, Cambridge University Press, 1993, não traduzido em português.

Tradução de Boaventura Antunes

revista por Izabela Santanna

Original alemão: http://www.exit-online.org/

http://obeco.planetaclix.pt/